Carta aberta ao Governador de Santa Catarina

Governador Carlos Moisés da Silva

As decisões do Governo do Estado de Santa Catarina demonstram que nosso Estado está em outro planeta. Ao entrarmos na 3ª semana de “isolamento”, já se flexibiliza-o, como se tivéssemos ultrapassado a pior fase da peste. Estamos relaxando as medidas de distanciamento, mas recém ingressamos nas mesmas e ainda nos primeiros momentos da pandemia.

No mundo real, uma situação calamitosa se aproxima. Trump já a admitiu nos EUA, mesmo com navios hospitais e tudo que lá podem mobilizar.

O estudo da Fiocruz e FGV é claro: uma segunda e maior onda atingirá todo país¹. O terremoto em curso no Rio e Sampa atingirá a todos.

Apesar dos claros posicionamentos do Ministro da Saúde e da OMS, o Governo de Santa Catarina, como um avestruz, teima em ignorar todos estes alertas: o isolamento radical é a única defesa que temos nesta guerra da humanidade contra este vírus.

Nesta guerra, talvez o maior desafio da humanidade de todos os tempos, a importância da ciência é fulcral. Minimizá-la apenas agigantará os números de mortes, que poderiam ser evitadas com o uso da inteligência disponível, nosso principal recurso.

O Governador Carlos Moisés acercou-se de um “Comitê gestor de crise”. Dele não participam membros das universidades ou da comunidade científica catarinense.

As principais decisões, como a do “Plano Estratégico” para a retomada das atividades econômicas em Santa Catarina, anunciado em 26 de março (quando completávamos a primeira semana de “isolamento”), advém do “grupo econômico” que assessora aquele Comitê.

Não temos a presença de experientes profissionais da saúde ou de autoridades em infectologia neste “Comitê gestor”.

Qualquer estratégia de enfrentamento da COVID-19 requer posições científicas fundamentadas, exige antevisão clara dos quadros epidemiológicos possíveis.

Apenas a partir do último dia 2 de abril, o nosso governo divulgou medidas razoáveis para a ampliação da nossa capacidade hospitalar, projetando “até o fim de maio… um aumento de aproximadamente 90%” dos leitos de UTI². Tardiamente, começou a dar sinais de preparar Santa Catarina para enfrentar o Coronavírus, admitindo agora “a possibilidade de montar hospitais de campanha”³.

O relaxamento do distanciamento cobrará um enorme e macabro preço. Não apenas em vidas, pois também agigantará mais a frente o colapso econômico.

Após o pedido de desculpas do Prefeito de Milão, não se admitirá que aqui perfaçamos o mesmo caminho errático. Ou seja, desculpas aqui serão ofensivas e inaceitáveis.

A postura do Governo de Santa Catarina não é um caso de um erro de avaliação, mas criminosa, e ela será devidamente penalizada. Não apenas o Governador, pois parte da sua equipe é cúmplice.

Escrito pelo Professor Armando de Melo Lisboa (UFSC)

Notas:

¹ Coronavírus: projeção indica que haverá segunda onda da epidemia no Brasil.
² Coronavírus em SC: Governo do Estado encaminha compra de equipamentos destinados a hospitais.
³ “Precisamos de ação imediata do governo federal”, diz governador Carlos Moisés.