Kadafi, Assad e a esquerda

Kadafi e Assad

Uma importante parcela da esquerda mundial continua a sustentar as virtudes anti-imperialistas do coronel Kadafi, o líder da revolução líbia (como ele oficialmente se intitula), e a só ver nos acontecimentos naquele país a mão da agressão da OTAN. O povo está com Kadafi, asseguram, e a oposição é toda comprada pela CIA.

A argumentação não é nova. Foi usada, sem procurar ser exaustivo, na Checoslováquia em 1968, e em geral em todas as revoluções que derrubaram os regimes do chamado “socialismo real” a partir da queda do Muro de Berlim.

Kadafi é diferente? Vejamos:

 – O regime de Kadafi era uma ditadura. Isto é incontestável. Não havia a mais mínima liberdade de expressão, de organização, de manifestação, de formar sindicatos. Nada. Na “Jamayria” não havia partidos. Ao simular um sistema político que seria uma espécie de “assembleia permanente”, o que o coronel impunha de fato, com mão de ferro, era uma ditadura policial onde quem mandava era ele e os filhos. Um bom teste que proponho aos defensores de Kadafi: seria ou não possível formar na Líbia um partido que defendesse as vossas ideias? Já sabem a resposta: em poucas horas estariam todos presos se o tentassem, por mais que se desfizessem em elogios ao “Grande Líder”.

– Há muito que Kadafi tinha deixado de ser independente do imperialismo. A revolução de Kadafi fez parte das revoluções nacionalistas árabes dos anos 50 e 60, que se inspiraram na de Gamal Abdel Nasser do Egipto. Durante alguns anos, apesar das suas excentricidades e megalomania, o “líder da revolução” aplicou uma política que em nada agradava aos Estados Unidos. Mas depois mudou.

Nos últimos dez anos, Kadafi abriu a exploração de petróleo às grandes empresas petrolíferas estrangeiras como Repsol, Total, Eni, Occidental, PetroCanada. Depois disso, os governantes europeus pareciam fazer fila para visitar o “grande líder”: Schröder, Berlusconi, Blair, mais recentemente Sarkozy, Sócrates… Colaborou ativamente com a política “anti-terrorista” de Bush depois do 11 de Setembro. Em 2008, a Líbia assinou com os EUA um acordo de cooperação que abriu o mercado líbio às grandes empresas norte-americanas, para além das companhias de petróleo. Então, o mito de um Kadafi anti-imperialista não passa disso mesmo: um mito.

– Aliás, na argumentação desta esquerda que apoia Kadafi parece que há uma espécie de buraco negro que isola os regimes de Kadafi e de Bashar al-Assad da Primavera árabe. Não se ouviu esta esquerda dizer que os manifestantes anti-Ben Ali ou anti-Mubarak eram pagos pela CIA. Na Tunísia e no Egipto, viva a oposição, vivam as revoluções, bem como no Iêmen ou no Bahrein. Na Líbia e na Síria, não.

Mas, então, por que a OTAN decidiu intervir militarmente? Porque não pode dar-se ao luxo de deixar uma revolução seguir o seu curso sem influenciar os seus líderes e garantir o controlo do futuro governo. Ainda assim, são conhecidas as reservas de Obama e a resistência a que as tropas americanas encabeçassem a força. E as tentativas de negociação que foram promovidas e, ao que tudo indica, só fracassaram porque Kadafi não aceitava qualquer solução que passasse pela sua saída do poder.

Não tenho dúvidas é preciso condenar a intervenção da OTAN e que deve haver líderes de forças do CNT (Conselho Nacional de Transição) pagos pela CIA. Mas isso invalida o caráter da mobilização anti-Kadafi? Claro que não. Também o fato de o CNT ter sido felicitado e reconhecido pela Autoridade Palestina e pelo Hamas não o transforma em progressista e defensor da causa palestina. O que será o próximo regime da Líbia ainda está para se ver e depende sobretudo do curso da revolução.

Mas Kadafi, ao que tudo indica, já é passado. O pior ainda vem pela frente: Bashar al-Assad, o homem que usa tanques e navios de guerra para massacrar a sua própria população. A oposição da Síria continua a usar as mobilizações de massa, e não a luta armada, para o denunciar. E não desiste, apesar dos massacres – pelo menos 2.200 mortos.

Assad já foi denunciado por crimes contra a Humanidade por um dos principais líderes da OLP. Será que a esquerda que o defende não vai abrir os olhos?

Escrito pelo jornalista e dirigente do Bloco de Esquerda, de Portugal e chupado do portal Carta Maior.

Alô, Dilma? Aqui é o Obama…

Alô, Dilma... aqui é o Obama

A ONU confirmou o uso de gás sarin num ataque a um subúrbio de Damasco no dia 21 de agosto. O documento não define os responsáveis pelo ataque, embora o secretário-geral, Ban-Ki-moon, ensaie uma espécie de domínio do fato contra o regime de Damasco. O recurso, como se vê, é multiuso. O brasileiro Paulo Sergio Pinheiro, comissário da ONU que investiga crimes contra os direitos humanos na Síria há mais de dois anos, tem uma opinião diferente. Ele concedeu uma profilática entrevista à Folha nesta 2ª feira, retificando um ‘consenso’ para o qual se empenham colunistas do próprio jornal. “As análises estratégicas por parte de vários países, os quais não vou nomear, foram profundamente enganadas e enganosas (…) porque alguns interesses externos apostam na destruição do Estado sírio”, disse Pinheiro e disparou no alvo: ” Se houvesse um Datafolha na Síria hoje, mais de 50% estariam a favor dele (Assad)”. Quantas vezes você leu ou ouviu isso antes, sobre um conflito que se arrasta há dois anos? A manipulação do noticiário internacional é um socavão intocado do jornalismo conservador. Escuro e embolorado, ele desautoriza ilusões no fim da guerra fria. O muro caiu; mas as classes continuam de pé. E a mídia oligopolizada está onde sempre esteve: editorias de internacional fazem da guerra externa uma extensão do combate interno. LEIA MAIS AQUI!

*Obama falou com Dilma por 20 minutos nesta 2ª feira:  telefonema de Washington adiou para hoje a decisão sobre a viagem de outubro aos EUA, da qual Dilma já havia desistido, em resposta à espionagem da CIA no país (leia a reportagem de Najla Passos e o relato do clima nos bastidores do governo sobre esse tema)**A crise mundial acabou? O que teria mudado para que ela virasse passado? (leia nesta pág)** 93% apoiam os corredores de ônibus em SP (Ibope); 73% apoiam o ‘Mais Médicos'(CNT): governo aprendeu o caminho das pedras?

Fim da linha para o mercador da morte na Síria

Conflito na Síria

Mais 27 corpos de crianças foram encontrados em uma massacre na Síria. Para acabar com esse horror, precisamos interromper o fluxo de armamentos enviados para aquela ditadura. Há uma maneira de fazer isso se tornar realidade, mas precisamos trabalhar juntos.

Funciona assim: A Índia e os Estados Unidos são os clientes principais do maior fornecedor de armas da Síria — a empresa estatal russa Rosoboronexport. Se conseguirmos que esses países ameacem suspender todos os seus acordos a menos que os russos parem de apoiar a máquina assassina da Síria, os revendedores de armas podem ser forçados a interromper as vendas para a ditadura síria. Tanto os EUA quanto a Índia querem acabar com a violência no país, mas apenas ações diplomáticas não têm sido suficientes. Essa é a intervenção mais eficiente que esses países podem fazer — vamos dar um apoio público gigantesco para que eles possam agir.

Os EUA já conseguiram persuadir essa empresa a interromper o suprimento de armas de pequeno porte para a Síria. Se conseguirmos aumentar a pressão sobre a Índia e fazer com que ambos os países se pronunciem agora, a Rosoboronexport pode ser forçada a cortar o suprimento de armas para a Síria por completo. Clique aqui para assinar essa petição urgente para acabar com o tráfico de mortes para a Síria e divulgue para todos — nosso clamor será entregue para ambos os países e para a Rosoboronexport em uma conferência sobre armamentos em Paris daqui a 3 diashttp://www.avaaz.org/po/us_and_india_stop_syrias_merchants_of_death/?vl.

As soluções políticas internacionais não estão conseguindo acabar com o derramamento de sangue na Síria — na semana passada, o mundo ficou perplexo com o massacre brutal em Al Houla, onde 49 crianças foram executadas. Porque? Assad é protegido por sua velha amiga, a Rússia, que bloqueou a ação da comunidade internacional, ao passo em que continua a lucrar com a venda de armamentos — Rosoboronexport é a maior revendedora de armas da Rússia e dá ao governo bilhões de dólares de receita por ano. O presidente sírio, Bashar al Assad, só continua no poder por conta de seu poderio militar e semeando o medo. Se conseguirmos convencer a Rússia de que não vale a pena apoiar a ditadura síria e acabar com a venda de armas para Assad, seu arsenal de morte entrará em declínio e o controle escapará de suas mãos.

A Índia e os EUA compõem mais de 50% das vendas da Rosoboronexport, e ambos os países querem uma ação forte da comunidade internacional sobre a Síria. Os EUA têm liderado esforços para acabar com a violência e um grupo de senadores está clamando ao Pentágono que cancele um enorme contrato de compra de helicópteros feito com a Rosoboronexport. A Índia já votou em prol de acabar com a violência na Síria no Conselho de Segurança da ONU. E, nesse momento, os especialistas dizem que, se existir uma chance do governo da Índia reconsiderar seu amparo à Rosoboronexport por causa da situação na Síria, as vendas ao regime ditatorial podem acabar e os russos podem voltar atrás no que diz respeito ao apoio que o país tem dado a Assad.

Rosoboronexport pode ser responsabilizada legalmente por crimes de guerra por enviar armas para a ditadura síria, mas devido aos grandes lucros e a um sentimento de impunidade eles continuam com o seu negócio sangrento como de costume. A pressão diplomática sobre a Rússia está crescendo nesse momento, mas é essa ameaça financeira que pode ser a carta na manga. Temos de agir agora e garantir que centenas de milhares de nós se pronunciem antes que a Rosoboronexport chegue em Paris na semana que vem. Clique para exigir que os EUA e a Índia acabem com os acordos mortais da Rússia agora e encaminhe para todoshttp://www.avaaz.org/po/us_and_india_stop_syrias_merchants_of_death/?vl.

Durante o ano passado, os membros da Avaaz apoiaram a primavera síria e o fim da violência — furamos o blecaute de mídia, expusemos as atrocidades escondidas e provemos uma corda salva-vidas para os sírios sob cerco. Hoje entregamos nossa petição à ONU para exigir mais monitores. Agora, vamos fazer tudo o que pudermos para interromper o fluxo de armas na raiz do problema que está matando o povo sírio.

Com esperança e determinação, Alice, Joseph, Denis, Luca, Ricken, Wissam, Dalia e toda a equipe da Avaaz.

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Não à violência sangrenta por causa do petróleo

Durante meses, o brutal presidente da Síria, Assad, tem contratado capangas para guerrear contra seu próprio povo. Líderes de governo de todo o mundo já condenaram essas atrocidades, mas países europeus de destaque têm o poder de interromper o fluxo de capital que financia esse banho de sangue.

Alemanha, França e Itália são os três principais importadores de petróleo sírio. Se esses países decidirem impor sanções imediatas da UE, os recursos de Assad para continuar com o massacre se esgotarão. Assad tem ignorado os apelos políticos para refrear suas investidas, e as lideranças da UE têm discutido medidas para reforçar sanções, mas apenas um grande protesto global as pressionará a agir com urgência.

Não temos tempo a perder – diariamente, dezenas de sírios são mortos a tiros, torturados ou desaparecem simplesmente por exigir direitos democráticos fundamentais. A UE pode parar imediatamente de financiar a repressão. Clique no link abaixo para assinar a petição para que os chefes de Estado da UE adotem imediatamente sanções contra o petróleo da Síria: http://www.avaaz.org/po/no_blood_for_oil/?vl.

Todos assistimos e lemos sobre a horrenda violência na Síria. Grande parte dessa cobertura vem de jornalistas cidadãos apoiados pela Avaaz que arriscam suas vidas para relatar sobre a repressão de Assad. E agora temos uma oportunidade de transformar nosso horror em ação. Especialistas dizem que sanções da UE contra o petróleo sírio interromperiam seriamente o fluxo de capital para o cruel exército de Assad sem produzir consequências negativas significativas para a economia europeia nem para a população síria.

Quase todo o petróleo exportado da Síria é comprado e refinado pela Alemanha, França e Itália, mas estes países ainda não usaram o grande peso de sua relação comercial com Assad como moeda de barganha em troca de proteção ao povo sírio. Todavia, eles denunciaram a violência, e os jornais informam que algumas lideranças da UE já estão fazendo pressão por sanções ao petróleo sírio. Vamos exigir que elas reforcem a pressão e aprovem essas sanções imediatamente, interrompendo a máquina que alimenta o regime assassino de Assad.

Junte-se agora mesmo ao apelo pela interrupção do fluxo de capital que financia as forças sírias. Clique no link abaixo para assinar a petição por sanções da UE contra o petróleo da Síria e encaminhe esta campanha a todos os seus contatos: http://www.avaaz.org/po/no_blood_for_oil/?vl.

Os membros da Avaaz têm tido um papel crucial de apoio aos sírios em sua luta por liberdade, democracia e direitos humanos. Grande parte das imagens e informações exibidas mundialmente sobre essa luta é financiada com pequenas doações de membros da Avaaz em todo o mundo. Vamos aproveitar esse impulso em prol de mudanças duradouras neste momento de escalada da violência contra o povo sírio e insistir que a União Europeia tome medidas imediatas.

Com esperança, Stephanie, Pascal, Morgan, Alice, Ricken, Wissam e o resto da equipe da Avaaz.

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Síria: Autoridades detêm 46 opositores

Quarenta e seis pessoas foram detidas pelas autoridades sírias em três cidades do país, na que já foi considerada a maior onda de detenções de opositores desde o início dos protestos populares.

Um comunicado de organizações de defesa dos direitos humanos, divulgado pela AFP, refere que 46 pessoas foram detidas, tendo sido registrada uma dezena de detenções em Deraa, 100 quilômetros ao sul da capital e foco das manifestações.

Os Estados Unidos e a ONU também já condenaram a repressão do protesto de sexta-feira na Síria, devido à força utilizada por parte das autoridades. No entanto, os norte-americanos recusaram intervir.

Recorde-se que os sírios iniciaram uma onda de contestação em março para exigir reformas democráticas no país, dirigido pelo Presidente Bashar al-Assad, cujo partido, o Baas, está no poder desde 1963.