Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?

Livro - Brasil em jogo o que fica da Copa e das Olimpíadas

Em meio a um crescente número de manifestações e um intenso debate sobre os impactos da Copa do Mundo em nossas cidades, a Boitempo Editorial amplia o debate ao lançar em junho a coletânea Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, editada no calor da hora, com contribuições diversas, como o jornalista investigativo escocês, Andrew Jennings; o secretário executivo do Ministério do Esporte, Luis Fernandes; a relatora especial da ONU, Raquel Rolnik; os urbanistas Ermínia Maricato (USP) e Carlos Vainer (UFRJ); o jornalista Juca Kfouri (quarta capa), entre outros. Para tornar o livro acessível ao maior número de pessoas, autores cederam seus textos, possibilitando que o volume chegue ao mercado a preço de custo (R$ 10,00).

Os megaeventos esportivos globais despertam, ao mesmo tempo, paixões e desconfianças. Um dos grandes méritos de Brasil em jogo é trazer argumentos dos dois lados em um embate de ideias que só tem a enriquecer o leitor. Assim, o livro apresenta perspectivas variadas sobre o papel do esporte na sociedade brasileira e na construção da identidade nacional, os impactos urbanísticos e as transformações dos megaeventos esportivos ao longo da história. A coletânea conta ainda com uma cronologia detalhada sobre os megaeventos esportivos, desde a origem até os tempos atuais.

O livro

Ter um olhar crítico sobre os megaeventos no Brasil não é patriótico nem antipatriótico. É apenas o necessário olhar crítico.
Juca Kfouri

Ao conquistar o direito de sediar a Copa do Mundo 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016, o Brasil aceitou o desafio de realizar dois megaeventos esportivos globais, que despertam, ao mesmo tempo, paixões e desconfianças. Há argumentos que defendem os eventos como uma janela singular e histórica de oportunidades, mas, longe do consenso, também surgem críticas que consideram tais projetos excludentes, potencializadores da desigualdade social nas cidades-sede e do endividamento público.

A polêmica abre espaço para um amplo debate sobre o que significa para o Brasil sediar os megaeventos esportivos mais simbólicos do mundo na atual conjuntura política, econômica e social. É nesse sentido que a Boitempo Editorial publica a coletânea Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, editada no calor da hora, com contribuições de Andrew Jennings, Luis Fernandes, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Carlos Vainer, Jorge Luiz Souto Maior, José Sergio Leite Lopes, Nelma Gusmão de Oliveira, Antonio Lassance, Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, João Sette Whitaker (apresentação) e Juca Kfouri e Gilberto Maringoni (quarta capa). O livro de intervenção chega às livrarias às vésperas da abertura da Copa do Mundo, na primeira semana de junho e traz perspectivas variadas sobre o papel contraditório do esporte na sociedade brasileira e na construção da identidade nacional, os impactos urbanísticos e as transformações dos megaeventos esportivos ao longo da história. A coletânea traz ainda uma cronologia detalhada sobre os megaeventos esportivos, desde a origem até os tempos atuais.

Brasil em jogo é o terceiro título lançado na já consolidada coleção Tinta Vermelha, publicada em parceria com o portal Carta Maior.  A obra segue a linha de Cidades rebeldes: passe livre a as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (2013), com o mesmo formato e preço (R$10,00 o impresso, R$5,00 o e-book). Para tornar o livro acessível ao maior número de pessoas, autores cederam gratuitamente seus textos e fotógrafos abriram mão do pagamento por suas imagens, possibilitando, assim, à editora colocar o volume no mercado a preço de custo. A proposta tem dado certo: em menos de um ano desde a publicação da primeira tiragem, venderam-se mais de 20 mil exemplares de Cidades rebeldes.

Por ocasião do lançamento de Brasil em jogo, a Boitempo promoverá debates em São Paulo e no Rio de Janeiro, na segunda-feira, 9 de junho de 2014. Em São Paulo, Raquel Rolnik, Jorge Luiz Souto Maior, João Sette Whitaker e Guilherme Boulos (MTST) se reunirão no Anfiteatro de História da FFLCH/USP. No Rio de Janeiro, Jose Sérgio Leite Lopes, Carlos Vainer, Nelma Gusmão de Oliveira e um representante do MTST se encontrarão no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ. Ambas atividades são gratuitas e acontecerão simultaneamente, às 18h.

Com a colaboração dos autores deste livro e de outros que fazem parte do catálogo da editora, a Boitempo seguirá, até o final da Copa, alimentando a reflexão no Blog da Boitempo, em uma seção especial disponível em: http://blogdaboitempo.com.br.

Ficha técnica

  • Título: Brasil em jogo
  • Subtítulo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?
  • Autores: Vários
  • Páginas: 96
  • Preço: R$ 10,00 | Ebook: R$ 5,00
  • Ano: 2014
  • Coedição: Boitempo e Carta Maior

Mais informações:

“A Fifa tem a estrutura de uma máfia!”

Andrew Jennings, Dialison Cleber Vitti, Dialison Cleber, Dialison Vitti, Dialison, Cleber Vitti, Vitti, #DialisonCleberVitti, @dcvitti, dcvitti, #blogdodcvitti, Ilhota, 2014

Conheça um pouco da história de Andrew Jennings, um dos autores do livro Brasil em jogo O que fica da Copa e das Olimpíadas? que ainda quero ter, e vou comprá-lo.

Premiado jornalista investigativo escocês, mundialmente conhecido pelo seu trabalho sobre o Comitê Olímpico Internacional e a Fifa, que ele chama da “máfia dos esportes” globais. É autor de Jogo sujo, o mundo secreto da Fifa (Panda Books, 2011), entre outros. Até hoje é o único repórter do mundo banido das coletivas de imprensa da Fifa.

Nascido em 1946, na Escócia. Mudou-se para Londres, na Inglaterra, ainda criança. Nos anos 1960, começou a carreira trabalhando para o jornal The Sunday Times. Passou por outras publicações britânicas até chegar à rádio BBC Four e, depois, à BBC TV, onde se destacou como repórter investigativo. Preparou reportagem sobre corrupção na New Scotland Yard, quartel-general da Polícia Metropolitana de Londres, que a emissora recusou-se a exibir. Demitiu-se, escreveu um livro sobre o tema – Scotland Yard’s Cocaine Connection (Jonathan Cape, 1990), com Paul Lashmar e Vyv Simon – , refez a matéria com Paul Greengrass (diretor de O ultimato Bourne) e a exibiu pelo programa World in Action, da TV Granada, do Reino Unido, em 1986.

Passou a atuar como colaborador do programa, para o qual realizou várias reportagens e documentários. Sua investigação sobre o envolvimento britânico no caso Irã-Contras ganhou a Medalha de Ouro 1989 do New York TV Festival. Em 1992, revelou o passado fascista do então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Juan Antonio Samaranch, e a corrupção dentro da organização. A denúncia lhe valeu uma sentença de prisão por cinco dias, algo que ele considera o maior prêmio que já ganhou na carreira.

Liderou, em 1993, a equipe que tornou-se a primeira da televisão ocidental a gravar imagens da Chechênia, para uma matéria sobre a atividade mafiosa no Cáucaso, transmitida pela Carlton TV. No mesmo ano, apresentou o programa Bus Stop na BBC Four. Na televisão, voltou a destacar-se ainda pelo trabalho investigativo sobre Hamilton Bland, técnico de esportes aquáticos do Comitê Olímpico Britânico, em 1997, e sobre a privatização ferroviária no Reino Unido, em 1998, para o World in Action.

Depois de 20 anos, voltou para a BBC TV, onde participa do programa de documentários Panorama. Começou investigando várias alegações de corrupção dentro da Federação Internacional de Futebol Association (Fifa), atribuidos a Jack Warner, presidente da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf), que incluiam milhões de dólares em suborno para garantir os direitos de comercialização para a ISL, empresa suíça de marketing esportivo. No mesmo programa, mostrou ainda como funciona a prática da compra de votos para garantir a posição de Sepp Blatter, presidente da Fifa.

Continuou a explorar o tema em outras reportagens. Em uma delas explorou a relação entre o político e ex-atleta olímpico Sebastian Coe e o Comitê de Ética da Fifa. Em outra, de grande repercussão no Brasil, apresentou a denúncia de corrupção de alguns membros da Fifa e do Comitê Executivo que votou na escolha da sede da Copa do Mundo de Futebol 2018, envolvendo Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol e, então, do Comitê Organizador da Copa do Mundo de Futebol Brasil 2014, Nicolás Leoz, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), e Hayatou Issa, presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF). Eles teriam recebido suborno da ISL, então detentora dos direitos de transmissão de televisão do evento e que foi à falência no início de 2011. Desde março de 2003, seu nome é o único proscrito das entrevistas coletivas promovidas pela Fifa, por ordem expressa de Blatter.

Escreveu para os jornais Financial TimesThe Sunday TimesThe TimesThe GuardianThe ObserverThe Daily TelegraphPrivate Eye e New Statesman, com matérias republicadas no mundo inteiro. No rádio, atua em vários canais da BBC, incluindo os transmitidos internacionalmente. Na BBC Radio Five apresentou o programa On The Line, sobre Esportes, e o Seven Brides for One Brother, sobre poligamia no estado americano de Utha. No ano 2000, montou um programa dividido em quatro partes sobre seu livro de escândalos olímpicos.

Em outubro de 2011, esteve em Brasília (DF), onde depôs em audiência pública da Comissão de Educação, Esporte e Cultura do Senado Brasileiro sobre o envolvimento de Blatter, João Havelange, ex-presidente da Fifa, e Ricardo Teixeira em irregularidades.

Mantém, na Internet, o site www.transparencyinsport.org, onde divulga suas ideias e publicações.

Ganhou muitos prêmios na Europa e na América, além do de 1989, entre eles o Prêmio Gerlev 1998, por sua “contribuição para a liberdade de expressão democrática no esporte”;  o Prêmio Integridade em Jornalismo 1999, atribuído pela OATH, um grupo formado por atletas olímpicos, e o Prêmio da Royal Television Society 2000, por sua investigação de corrupção nos Jogos Olímpicos. É membro honorário vitalício da Associação Americana de Treinadores de Natação, cargo concedido por seu trabalho de investigação sobre os escândalos de doping e de manipulação de resultados na natação olímpica.

Participa de conferências acadêmicas em diversos países de todos os continentes, inclusive no Brasil, onde mostrou-se favorável à abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a administração de Ricardo Teixeira na CBF, conforme proposta pelo ex-jogador Romário de Souza Faria, campeão mundial de 1994.

Além de Scotland Yard’s Cocaine Connection, escreveu Os Senhores dos Anéis: Poder Dinheiro e Drogas Nas Olimpíadas Modernas (Best Seller, 1992), Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa (Panda Books, 2011) e, mais recentemente, Um jogo cada vez mais sujo: o padrão Fifa de fazer negócios e manter tudo em silêncio (Panda Books, 2014).

Confira alguns vídeos disponibilizado na rede:

Debate com Julian Assange, fundador do WikiLeaks, em São Paulo

Debate com Julian Assange, fundador do WikiLeaks, em São Paulo

Boitempo Editorial e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo promovem seminário “Liberdade, privacidade e o futuro da internet” com participação de Julian Assange por videoconferência.

Com as recentes denúncias de espionagem divulgadas pelo ex-técnico da Agência Nacional de Segurança dos EUA, Edward Snowden, a discussão sobre liberdade e privacidade na internet ganhou o noticiário em todo o Brasil. Considerada um grande avanço no campo das comunicações, de tempos em tempos, com a revelação de casos como o de Snowden, a internet torna-se alvo de desconfiança e críticas.

Como contribuição para esta discussão, no próximo dia 18 de setembro, no Centro Cultural São Paulo, acontece o seminário “Liberdade, privacidade e o futuro da internet”, correalizado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e Boitempo Editorial.

O secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, acredita na importância da Prefeitura de São Paulo contribuir para a reflexão sobre o assunto. “A internet é hoje um espaço chave no cotidiano de praticamente toda a humanidade e essencial para a fruição cultural neste início do século XXI. A quebra de privacidade pela bisbilhotagem e a prática de espionagem é uma ameaça para os direitos individuais conquistados com muita luta no século passado e é preciso uma grande mobilização para garantir a privacidade e a liberdade na rede e o direito dos usuários a uma cultura livre”, conclui ele.

O evento contará com três mesas de debates. No encerramento, às 19h30, acontecerá a videoconferência com Julian Assange, fundador do Wikileaks e autor do livro Cypherpunks: Liberdade e o futuro da internet, publicado este ano pela Boitempo. Atualmente sob asilo político na embaixada do Equador em Londres, Assange participará da última mesa do evento por meio de transmissão ao vivo, com tradução simultânea. A jornalista Natália Viana, parceira do Wikileaks no Brasil e coordenadora da Agência Pública de Jornalismo Investigativo e o secretário Juca Ferreira compõem a mesa de discussões.

A primeira mesa começa às 14h e traz como tema “Arquitetura e Governança na Internet” e explora as regras para o tráfego dos dados. Na sequência, às 16h, o assunto é “Vigilância e Privacidade na Rede”, que aprofunda a discussão em torno da privacidade de dados em tempos de vigilância. Este tema terá entre os debatedores, Silvio Rhatto, especialista brasileiro em tecnologia digital e armazenamento de dados. A segurança dos usuários para a troca de informações e a dinâmica das redes sociais estarão entre os temas a serem discutidos.

Por meio do seu livro Cypherpunks: Liberdade e o futuro da internet, Assange pauta uma questão absolutamente contemporânea, que impacta a vida de todos os usuários da internet, que se beneficiam da revolução no campo das comunicações mas ainda refletem pouco sobre a vigilância que sofrem.

Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, ressalta a importância da obra de Assange: “O livroCypherpunks e a discussão global iniciada por Julian Assange à frente do Wikileaks – ao quebrar paradigmas e revelar a vigilância em massa na internet – são contribuições inestimáveis ao nosso tempo. O debate sobre a liberdade no meio virtual é necessário e inevitável, como mostram as ações de Bradley Manning, Edward Snowden e do próprio Assange, em busca de mais transparência. É hora de discutir as consequências dessas ações e ao mesmo tempo disputar a regulação e as políticas de comunicação no Brasil e na América Latina como um todo”.

Ingressos para a videoconferência serão entregues durante as atividades da tarde. Os restantes serão distribuídos a partir das 18h30. O evento é público, gratuito e não requer inscrição.

Serviço

  • Seminário “Liberdade, privacidade e o futuro da internet”.
  • Com Julian Assange, Juca Ferreira, Natalia Viana, Sérgio Amadeu, Maria Tereza Carvalho, Silvio Rhatto, Marta Knashiro e Gisele Beiguelman.
  • Dia 18/9 | a partir das 14h | Centro Cultural São Paulo | Sala Adoniran Barbosa.
  • Rua Vergueiro | nº 1.000 (próximo da estação Vergueiro do Metrô).
  • Confira a página oficial do evento no Facebook.

Cidades rebeldes – primeiro livro impresso sobre as manifestações no Brasil

Cidades rebeldes. Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil - Vários autores

Cidades rebeldes. Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil – Vários autores.

Na esteira dos recentes protestos que abalaram o país, a Boitempo lança Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos que ficaram conhecidos como as Jornadas de Junho, além de ser o principal esforço intelectual até o momento de analisar as causas e consequências desse acontecimento marcante para a democracia brasileira. Escrito e editado no calor da hora, em junho e julho,Cidades rebeldes é um livro de intervenção, que traz perspectivas variadas sobre as manifestações, a questão urbana, a democracia e a mídia, entre outros temas.

Publicada em parceria com o portal Carta Maior e com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, a obra segue a linha do livro Occupy: movimentos de protestos que tomaram as ruas, com o mesmo formato e preço (R$10,00 o impresso, R$5,00 o e-book), e consolida uma nova coleção da Boitempo, de livros de intervenção e teorização sobre acontecimentos atuais, intitulada “Tinta Vermelha”, em referência a um trecho do discurso do filósofo esloveno Slavoj Žižek no Occupy Wall Street, em 2011. Para tornar o livro acessível ao maior número de pessoas – estimulando-as, quem sabe, a ir às ruas por mudanças –, autores cederam gratuitamente seus textos, tradutores não cobraram pela versão dos originais para o português, quadrinistas e fotógrafos abriram mão de pagamento por suas imagens, o que possibilitou deixar o volume a preço de custo.

Participam dessa coletânea autores nacionais e internacionais, como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Jorge Souto Maior, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa. O livro também conta com um ensaio fotográfico do coletivo Mídia NINJA e ilustrações sobre as manifestações de Laerte, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Fido Nesti, Bruno D’Angelo, João Montanaro e Pirikart, entre outros.

O lançamento pretende contribuir com o debate iniciado pelo Movimento Passe Livre (MPL) – o MPL-SP participa da coletânea com um artigo –, ajudando a consolidar suas bases teóricas e práticas. Nesse sentido, Cidades rebeldes reúne o pensamento crítico independente para refletir os fatos recentes, em meio a uma disputa de interpretações das vozes rebeldes, que se estendeu inclusive às ruas. Raquel Rolnik, na apresentação do livro, pensa as manifestações “como um terremoto que perturbou a ordem de um país que parecia viver uma espécie de vertigem benfazeja de prosperidade e paz, e fez emergir não uma, mas uma infinidade de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos”.

Nesse sentido, os autores apontam várias agendas como o epicentro do terremoto. Para Ruy Braga, que analisa os operadores de telemarketing como um fenômeno expressivo do mercado de trabalho brasileiro na última década, as manifestações são revoltas de quem está empregado, mas não vê perspectivas para o futuro decorrentes desse trabalho. “A satisfação trazida pela conquista do emprego formal e pelo incremento da escolarização choca-se com um mercado de trabalho em que 94% dos novos postos pagam até 1,5 salário-mínimo. Sem mencionar as precárias condições de vida nas periferias das cidades e a violência policial que persegue as famílias trabalhadoras, no intervalo de uns poucos anos pudemos constatar que a vitória individual transformou-se em um alarmante estado de frustração social”, afirma o sociólogo.

Nas palavras de Carlos Vainer (parafraseando Mao Tse Tung), “uma fagulha pode incendiar uma pradaria” e, no caso brasileiro, essa fagulha foi a mobilização contra o aumento da tarifa nos transportes públicos convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL), que afirma em sua contribuição à coletânea que a circulação livre e irrestrita é um componente essencial do direito à cidade que as catracas – expressão da lógica do transporte como circulação de valor – bloqueiam. João Alexandre Peschanski, compartilhando dessa visão, analisa a proposta da tarifa zero, sua apropriação possível pelo sistema capitalista e, ao mesmo tempo, seu potencial transformador da sociedade. Já Mike Davis analisa as origens da hegemonia dos utilitários no trânsito (cada vez mais parecidos com veículos de guerra, verdadeiros casulos de proteção) atribuída ao crescente medo da classe média a partir da década de 1990. “Essa tendência irresistível aponta para uma militarização das rodovias conduzida pelos utilitários, em sincronia com uma militarização e uma imobilização mais amplas do espaço urbano”, aponta Davis.

David Harvey teoriza sobre a liberdade da cidade que, segundo ele, é muito mais que um direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudar a cidade de acordo com o desejo de nossos corações. “A questão do tipo de cidade que desejamos é inseparável da questão do tipo de pessoa que desejamos nos tornar. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmos e a nossas cidades dessa maneira é, sustento, um dos mais preciosos de todos os direitos humanos”.

Nas ruas, o direito à mobilidade se entrelaçou fortemente com outras pautas e agendas constitutivas da questão urbana no Brasil, como o tema dos megaeventos e suas lógicas de gentrificação e limpeza social, tema analisado pela urbanista Ermínia Maricato. O texto de Silvia Viana aponta para uma diferença substantiva que se estabeleceu nas interpretações – e apresentações – das manifestações: a clivagem entre “pacíficos” e “baderneiros”. Como em outros snapshots da guerra de significados, a ocupação da cidade foi disputada por diferentes sentidos e ideologias. A tropa de choque, que no cotidiano executa pessoas sumariamente nas favelas e realiza despejos jogando bombas de gás nos moradores, entrou e saiu de cena ao longo das manifestações, lembrando que, no país próspero e feliz, a linguagem da violência ainda é parte importantíssima do léxico político. É também nesse sentido que o artigo de Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira sobre o Rio de Janeiro demonstra a relação entre um projeto excludente de cidade e a militarização dos territórios populares.

O jurista Jorge Luiz Souto Maior reflete sobre o direito social e a descriminalização dos movimentos sociais no esforço de superar a noção retrógrada de que a questão social trata-se de “caso de polícia”. “Ocorre que, adotando-se os pressupostos jurídicos atuais, os movimentos sociais, quando se mobilizam em atos políticos para lutar por direitos, não estão contrários à lei. Além disso, não podem ser impedidos de dizer que determinadas leis, sobretudo quando mal interpretadas e aplicadas, têm estado, historicamente, a serviço da criação e da manutenção da intensa desigualdade que existe em nosso país”.

Desilusão/denúncia em relação à democracia e as formas de expressão pública? Na chamada agenda da “crise de representação” novamente convergem pautas e leituras contraditórias. A questão da representação não envolve apenas a crise dos partidos e da política e, portanto, a necessidade de uma reforma política, uma das principais agendas das ruas. Segundo Venício A. de Lima, “os jovens manifestantes se consideram ‘sem voz pública’, isto é, sem canais para se expressar”.

Cidades Rebeldes - Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do BrasilQual a conexão entre o movimento no Brasil e outros tantos do planeta, como o que ocorreu ao mesmo tempo em Istambul, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados da Espanha? Esses movimentos levaram a protestos majoritariamente compostos por jovens, convocados por meio de redes sociais, sem a presença de partidos, sindicatos e organizações de massa tradicionais. Slavoj Žižek analisa essa questão com maestria em seu ensaio. Nos diversos países citados, assim como nas cidades brasileiras, os modelos de desenvolvimento e as formas de fazer política estão em questão.

De acordo com Leonardo Sakamoto, a “civilização representada por fuzis, colheitadeiras, motosserras, terno e paletó […] mais cedo ou mais tarde terá de mudar”. O velho modelo de república representativa, formulado no século XVIII e finalmente implementado como modelo único em praticamente todo o planeta, dá sinais claros de esgotamento. O leitor deste conjunto de artigos provavelmente concordará que a voz das ruas não é uníssona. Trata-se de um concerto dissonante, múltiplo, com elementos progressistas e de liberdade, mas também de conservadorismo e brutalidade, presentes na própria sociedade brasileira.

Rolnik prevê que as propostas alternativas ao modelo dominante precisarão ter seu tempo de formulação e experimentação. “Temos que aprender a não nos assustar com isso também, e, como diz Mauro Luis Iasi: ‘Devemos apostar na rebelião do desejo. Aqueles que se apegarem às velhas formas serão enterrados com elas’.”

[Este texto se baseia livremente na apresentação de Raquel Rolnik]

Sumário

  • Apresentação – As vozes das ruas: as revoltas de junho e suas interpretações – Raquel Rolnik
  • Não começou em Salvador, não vai terminar em São Paulo – Movimento Passe Livre – São Paulo
  • É a questão urbana, estúpido! – Ermínia Maricato
  • A liberdade da cidade – David Harvey
  • Quando a cidade vai às ruas – Carlos Vainer
  • A rebelião, a cidade e a consciência – Mauro Luis Iasi
  • Estrada de metal pesado – Mike Davis
  • Será que formulamos mal a pergunta? – Silvia Viana
  • O transporte público gratuito, uma utopia real – João Alexandre Peschanski
  • Territórios transversais – Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira
  • As Jornadas de Junho – Lincoln Secco
  • Sob a sombra do precariado – Ruy Braga
  • A vez do direito social e da descriminalização dos movimentos sociais – Jorge Luiz Souto Maior
  • Mídia, rebeldia urbana e crise de representação – Venício A. de Lima
  • Em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas – Leonardo Sakamoto
  • Problemas no Paraíso – Slavoj Žižek

Sobre os autores

  • Carlos Vainer é professor titular do instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur-UFRJ) e coordenador da Rede de Observatórios de conflitos Urbanos e do Núcleo Experimental de Planejamento Conflitual.
  • David Harvey, geógrafo britânico, é professor de antropologia na pós-graduação da Universidade da cidade de Nova York e professor de geografia aposentado das universidades Johns Hopkins e Oxford. Autor de diversos livros, pela Boitempo lançou O enigma do capital (2011) e Para entender O capital (2013).
  • Ermínia Maricato, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e professora visitante da Unicamp, formulou a proposta do Ministério das cidades, onde foi ministra adjunta (2003-2005). É autora do livro O impasse da política urbana no Brasil (Vozes, 2011).
  • Felipe Brito é doutor em serviço social pela UFRJ e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Polo Universitário de Rio das Ostras. Em pareceria com Pedro Rocha de Oliveira, organizou Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social(Boitempo, 2013).
  • João Alexandre Peschanski, editor-adjunto da Boitempo Editorial, é doutorando em sociologia na Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Organizou, com Ivana Jinkings, As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007). É colunista do Blog da Boitempo.
  • Jorge Luiz Souto Maior é jurista e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTR.
  • Leonardo Sakamoto, jornalista, é doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo e professor de jornalismo da Pontifícia Universidade católica de São Paulo (PUC-SP). É coordenador da ONG Repórter Brasil e colunista do portal UOL.
  • Lincoln Secco, professor do Departamento de História da USP, é autor dos livros Gramsci e o Brasil (Cortez, 1995), A Revolução dos Cravos (Alameda, 2005) e Caio Prado Júnior (Boitempo, 2008). É colunista do Blog da Boitempo.
  • Mauro Luis Iasi é professor-adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas, membro do comitê central do Partido comunista brasileiro (PCB), presidente da Associação de Docentes da UFRJ (Adufrj-SSind) e colunista do Blog da Boitempo.
  • Mike Davis foi caminhoneiro, açougueiro e militante estudantil antes de se tornar professor no Departamento de História da Universidade da Califórnia (UCLA), como especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente. Pela Boitempo, é autor de Planeta favela (2006), Apologia dos bárbaros (2008) e Cidade de quartzo (2009).
  • Movimento Passe Livre é um movimento social autônomo, apartidário e horizontal, cuja principal luta centra-se na gratuidade de um transporte público de qualidade. Foi oficializado em 2005, em Porto Alegre, na Plenária Nacional pelo Passe Livre, organizada durante o Fórum Social Mundial.
  • Paulo Arantes é professor aposentado do Departamento de Filosofia da USP. Publicou, entre outros livros, Hegel: a ordem do tempo (Hucitec, 2000) e Extinção (Boitempo, 2007). Coordena a coleção Estado de Sítio, da Boitempo Editorial.
  • Pedro Rocha de Oliveira formou-se em filosofia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e é mestre e doutor em filosofia pela Pontifícia Universidade católica do Rio de Janeiro (PUc-RJ). É organizador de Até o último homem (Boitempo, 2013), em parceria com Felipe Brito.
  • Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista, é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e relatora especial do conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Autora de A cidade e a lei (Fapesp/Studio Nobel, 1997) e O que é cidade (Brasiliense, 1988), entre outros livros.
  • Roberto Schwarz, formado em ciências sociais pela USP, é crítico literário e professor aposentado de teoria literária. Entre diversos outros títulos, é autor de Um mestre na periferia do capitalismo (1990) e Ao vencedor as batatas (1977), ambos pela Duas cidades.
  • Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da USP. Autor de A política do precariado(2012) e organizador de Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira (2010), em parceria com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek. É colunista do Blog da Boitempo.
  • Silvia Viana, mestre e doutora em sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é professora de sociologia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV). Pela Boitempo, publicou o livro Rituais de sofrimento (2013).
  • Slavoj Žižek, filósofo e psicanalista esloveno, é presidente da Sociedade pela Psicanálise Teórica, de Liubliana, e diretor do Instituto de Humanidades da Universidade Birkbeck, de Londres. Possui nove livros traduzidos pela Boitempo, incluindo, Menos que nada (2013) e O ano em que sonhamos perigosamente (2012). Integra o conselho editorial da Margem Esquerda.
  • Venício A. de Lima, jornalista e sociólogo, é professor titular aposentado de ciência política e de comunicação na Universidade de Brasília (UnB). Publicou, entre outros livros, Liberdade de expressão x liberdade de imprensa (Publisher Brasil, 2010) e Comunicação e cultura: as ideias de Paulo Freire (Perseu Abramo, 2011).

Ficha técnica

Cidades rebeldes – Ciclo de debates em São Paulo e no Rio de Janeiro

Cidades rebeldes - Ciclo de debates em São Paulo e no Rio de Janeiro

Chega às livrarias nos próximos dias o primeiro livro impresso sobre as manifestações, intitulado Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Escrito e editado no calor da hora, em junho e julho, Cidades rebeldes é um livro de intervenção, que traz perspectivas variadas sobre as manifestações, a questão urbana, a democracia e a mídia, entre outros temas. Publicada em parceria com o portal Carta Maior e com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, a obra consolida uma nova coleção da Boitempo, de livros de intervenção e teorização sobre acontecimentos atuais, que intitulamos “Tinta vermelha”. Para tornar o livro acessível ao maior número de pessoas – estimulando-as, quem sabe, a ir às ruas por mudanças –, autores cederam gratuitamente seus textos, tradutores não cobraram pela versão dos originais para o português, quadrinistas e fotógrafos abriram mão de pagamento por suas imagens, o que possibilitou deixar o volume a preço de custo (R$10,00 o impresso, R$5,00 o e-book).

Participam dessa coletânea autores nacionais e internacionais, como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Jorge Souto Maior, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. O MPL-SP também participa da coletânea com um artigo. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa. O livro também conta com um ensaio fotográfico do coletivo Mídia NINJA e ilustrações sobre as manifestações de Laerte, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Fido Nesti, Bruno D’Angelo, João Montanaro e Pirikart, entre outros.

Você tem interesse em receber um exemplar do livro para possível resenha ou matéria? Como as manifestações continuam, gostaria de entrevistar alguns dos autores ou alguém da equipe de realização do livro?

No dia 22/08 haverá um ciclo de debates com alguns dos autores desse livro no Rio e em São Paulo para marcar o lançamento. As atividades são gratuitas e não requer inscrição. Agradeço se puder divulgar esses eventos. Hoje lançamos um booktrailer do livro: http://www.youtube.com/watch?v=i3dqWYk5hVI&feature=share&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ.

Abaixo, informações sobre os ciclos de debates

Na esteira dos recentes protestos que abalaram o país, a Boitempo lança Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos que ficaram conhecidos como as Jornadas de Junho, além de ser o principal esforço intelectual até o momento de analisar as causas e consequências desse acontecimento marcante para a democracia brasileira. Escrito e editado no calor da hora, em junho e julho, Cidades rebeldes é um livro de intervenção, que traz perspectivas variadas sobre as manifestações, a questão urbana, a democracia e a mídia, entre outros temas.

A editora realiza, no dia 22 de agosto, um ciclo de debates sobre o direito à cidade e as “Jornadas de Junho”, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com alguns dos autores do livro.

Escritor Flávio Aguiar vem ao Brasil para lançar A Bíblia segundo Beliel

A Bíblia segundo Beliel

A Boitempo Editorial traz o renomado escritor e pesquisador da Universidade de São Paulo, Flávio Aguiar, para debates e noite de autógrafos de lançamento do livro A Bíblia segundo Beliel: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer (120 págs. R$ 29, Boitempo). Aguiar é gaúcho e se apresenta primeiro em Porto Alegre, na Palavraria – Livros & Café nesta sexta-feira, dia 01 de março, às 19h. Além do autor, o evento contará com a presença do escritor e tradutor Paulo Neves.

Em seguida, Aguiar vem a São Paulo para o lançamento no Espaço Revista CULT, no dia 12 de março, às 19h, que também contará com debate, com participação de José Roberto Torero, e sessão de autógrafos.

Flávio Aguiar foi professor de literatura da USP por mais de 30 anos, e já publicou mais de 30 livros ao longo de sua carreira, entre o quais vários ganhadores do Prêmio Jabuti. Atualmente ele mora na Alemanha e veio diretamente de Berlim para lançar no Brasil seu novo livro de ficção, uma sátira sobre as histórias bíblicas, que ele estuda com profundidade há anos.

Flávio Aguiar é colunista do Blog da Boitempo e escreve quinzenalmente as Crônicas de Berlim. Leia o texto Lúcifer e eu em que Flávio Aguiar descreve as recordações bíblicas e colaterais que remetem à escrita e publicação de A Bíblia segundo Beliel.

A Bíblia segundo Beliel

da Criação ao Fim do Mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer

Um anjo desgarrado decide reunir narrativas bíblicas perdidas. Mas os narradores são, na maioria, como ele: desgarrados. São os coadjuvantes da história, como a pomba que Noé soltou da arca para ver se as águas do dilúvio tinham baixado; ou o demônio Misgodeu, que trabalha como porteiro do Inferno, um faz-tudo que toca os mecanismos daquele fim de mundo, sem o qual nada funciona no reino de Lúcifer; ou ainda o escravo de Jó, que assiste, completamente surpreso, à desgraça e às tentações de seu amo.

Lemos também sobre a luxúria e a hecatombe de Sodoma e Gomorra contada por um dos anjos enviados para averiguar o que por lá se passava (e como se passavam coisas!). Assim como fala do passado, a narrativa de Beliel, ele mesmo um faz-tudo nos céus, se dirige ao futuro, nos levando a uma versão absolutamente fantástica do fim dos tempos e do destino da Criação.

A Bíblia segundo Beliel  glosa as teorias e previsões sobre a proximidade do fim do mundo, como acontece no Apocalipse de São João Evangelista. Só que com alguns detalhes que São João não previu nem talvez pudesse prever. Afinal, o autor leva uma vantagem: está quase dois mil anos mais perto do fim do mundo do que ele estava. No livro, Flávio traça não apenas as previsões de origem religiosa, mas também aquelas de natureza científica ou histórica. Sua geração cresceu sob o temor de que a Guerra Fria – depois das hecatombes  da Segunda e da Primeira Guerra Mundial – os levasse diretamente ao fim do mundo. O risco de uma catástrofe atômica diminuiu, mas não está descartado. Agora se fala também no aquecimento global, no efeito estufa, e vive-se em meio a furacões tropicais que invadem as regiões mais temperadas.A Bíblia segundo Beliel, portanto, é um livro perfeitamente realista: uma leitura do nosso tempo.

Em tom de paródia, mas solidamente ancorada nas tradições bíblicas – que Flávio Aguiar, pesquisador e professor de literatura da USP, conhece como poucos –, A Bíblia segundo Beliel combina a leveza da chanchada com reflexões profundas e ousadas sobre temas como a religião, o fanatismo, a crença e a descrença, a opressão e a liberdade, a desigualdade e a justiça e, last but not least, o amor, como objetivo e possibilidade de redenção da humanidade.

Sobre o surgimento do livro, o escritor é enfático: “Foi uma possessão. Passei muitos anos estudando as Bíblias como fontes literárias e das demais artes. Mais da metade das literaturas e das artes que estudamos e curtimos são incompreensíveis sem um conhecimento mínimo das diversas Bíblias. Até um autor declaradamente ateu, como Machado de Assis, é profundamente bíblico. Acho que de repente isso se materializou numa reescritura do que eu lera e me inspirara na minha vida de professor e crítico literário. Como se todo esse mundo acumulado pegasse um desvio da linha e saísse em busca de um caminho próprio. Por isso não consigo dizer, por exemplo, que o livro é meu. Ele é mesmo do Beliel, esse anjo torto que se materializou em mim. Eu fui apenas seu porta-voz”.

Trecho do livro

No passar das claridades e escuridões (ninguém ainda inventara as horas) Adão se entediava. Depois de contar interminavelmente as folhas das palmeiras, começou a contar grãos de areia.

Nessa altura o arcanjo Gabriel, que de vez em quando vinha dar uma espiada, resolveu levar o caso a Jeová, Que ficou preocupado.

– Preciso fazer algo, Ele disse a Gabriel.

E fez. Esperou que Adão adormecesse, e praticou a primeira cirurgia da história ocidental. Extraiu do peito de Adão uma costela a mais que ali pusera just in case e, a partir dela, moldou uma mulher.

– Agora ele vai ter com que se ocupar, exclamou Jeová num tom vingativo, que Gabriel não entendeu

Ficha técnica

  • Título: A Bíblia segundo Beliel.
  • Subtítulo: da Criação ao Fim do Mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer.
  • Autor: Flávio Aguiar.
  • Ilustrações: Ricardo Bezerra.
  • Orelha: José Roberto Torero.
  • Páginas: 120.
  • ISBN: 978-85-7559-297-7.
  • Preço: R$ 29,00.
  • Editora: Boitempo

 

Transmissão ao vivo pela internet do III Curso Marx-Engels

Transmissão ao vivo pela internet do III Curso Marx-Engels

A Boitempo informa que o III Curso Livre Marx-Engels, que começa amanhã, sábado (18), às 10h, será transmitido ao vivo pela internet de forma gratuita. Para acompanhar, basta acessar este link na hora do Curso. Compartilhe o link da transmissão nas redes sociais! http://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2012/01/twitter.jpg http://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2012/01/facebook.jpg http://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2012/01/google.jpg

Sobre o III Curso Marx-Engels

A Boitempo Editorial, em parceria com o Centro de Pesquisas 28 de Agosto e o Sindicato dos Bancários de São Paulo, promove em 2012 a terceira edição do “Curso Livre Marx-Engels”. As aulas – ministradas por alguns dos mais importantes acadêmicos do Brasil – serão baseadas nos livros editados pela Boitempo e abertas a todos os interessados em ler e estudar a colossal obra desses dois filósofos.

Os professores participantes são: Alysson Mascaro, Antonio Carlos Mazzeo, Antonio Rago, Arlene Clemesha, Emir Sader, José Paulo Netto, Mario Duayer, Michael Löwy e Ruy Braga.

O curso discutirá os 15 livros da coleção Marx-Engels. Os encontros, realizados aos sábados, terão duração de 6 horas, divididos em duas aulas, uma no período da manhã e outra à tarde. As aulas acontecem a partir do dia 18/08 até 22/09, com apenas um recesso no dia 08/09.

Assim como na primeira edição do Curso, as aulas dessa terceira edição serão gravadas e posteriormente publicadas no canal da Boitempo no YouTube. Contudo, devido à grande procura (que teve inscrições encerradas em poucas horas), vamos também viabilizar a transmissão ao vivo online do Curso.

Os livros abordados serão

  1. A ideologia alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels.
  2. Manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels.
  3. Crítica ao Programa de Gotha, de Karl Marx.
  4. Sobre a questão judaica, de Karl Marx.
  5. Sobre o suicídio, de Karl Marx.
  6. Crítica da filosofia do direito de Hegel, de Karl Marx.
  7. O socialismo jurídico, de Friedrich Engels e Karl Kautsky.
  8. A sagrada família, de Karl Marx e Friedrich Engels.
  9. Grundrisse, de Karl Marx.
  10. A guerra civil na França, de Karl Marx.
  11. O 18 de brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx.
  12. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Friedrich Engels.
  13. Manuscritos econômico-filosóficos, de Karl Marx.
  14. Lutas de classes na Alemanha, de Karl Marx e Friedrich Engels.
  15. Lutas de classes na França, de Karl Marx e Friedrich Engels (lançamento em setembro)

Confira a programação completa aqui.

De Rousseau a Gramsci: Ensaios de teoria política

Livro De Rousseau a Gramsci

Após anos sem publicar livros de sua autoria, Carlos Nelson Coutinho, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de obras fundamentais sobre teoria política, estreia na Boitempo Editorial com a coletânea De Rousseau a Gramsci: ensaios de teoria política. Um dos mais reconhecidos estudiosos marxistas do Brasil, Coutinho consagrou-se por traduzir e difundir o pensamento de György Lukács e Antonio Gramsci no país.

Nesta nova empreitada intelectual, o autor aponta as potencialidades transformadoras e os dilemas de fenômenos políticos, como a democracia, pelo pensamento de Rousseau, Hegel, Marx e Gramsci, além de aprofundar o compromisso entre reflexão e ação que caracteriza as suas obras. Para ele é preciso confrontar e superar a ideia de democracia como um simples jogo competitivo pelo poder político.

“O maior elogio que eu poderia fazer a este livro é que ele nos obriga a refletir sobre a baixa intensidade do atual regime democrático brasileiro e nos convoca para uma tarefa a um só tempo teórica e política: indagar os limites da ordem presente”, afirma Ruy Braga, professor de Sociologia da Universidade de São Paulo.

Diante do atual cenário brasileiro, o autor recupera uma importante reflexão de Gramsci sobre duas práticas políticas, acrescentando ainda um paralelo: enquanto a teoria política se ocupa da “grande política”, ou seja, da luta pela destruição, pela defesa ou pela conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico-sociais; a “ciência política” tem como objeto questões da “pequena política”, que compreende as questões parciais e cotidianas que se apresentam no interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela predominância entre as diversas frações de uma mesma classe política.

O livro apresenta uma defesa consistente da teoria política, considerada uma disciplina filosófica, contra a chamada “ciência política”, que compartimenta o saber. “A teoria política não hesita em ligar a esfera da política à totalidade social e considera parte ineliminável do seu domínio teórico também os temas hoje considerados ‘sociológicos’, ‘econômicos’, ‘antropológicos’ e ‘históricos’”, afirma o autor. “A teoria política também não tem a pretensão durkheimiana de tratar os fenômenos políticos como ‘coisas’ semelhantes aos objetos naturais; ao contrário, pretende compreendê-los como processos dinâmicos determinados pela práxis, situados no devir histórico e que, por isso, têm sua gênese no passado e apontam para o futuro”.

Relacionando a teoria política com a ética, com juízos de valor e com a ideologia, no sentido gramsciano de “estímulo para uma ação efetiva no mundo real”, Coutinho segue fiel à síntese de Marx de que não basta entender o mundo, trata-se também de transformá-lo.

Trecho do livro

Não é difícil constatar que os autores tratados neste livro (Rousseau, Hegel, Marx, Gramsci) são teóricos da política e não cientistas políticos. Nesse sentido, eles fazem parte de uma tradição que começa em Platão e chega até Hannah Arendt e John Rawls, passando por Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu e tantos outros. Nenhum desses autores se sentiria à vontade se tivesse de responder, num currículo solicitado hoje por uma agência financiadora, a que campo das chamadas ‘ciências sociais’ pertenceriam. Platão era filósofo ou cientista político? Montesquieu era sociólogo ou historiador? Rousseau era pedagogo ou linguista? Marx era economista ou crítico literário? A simples formulação de tais questões revela quanto a atual divisão departamental do saber acadêmico é incapaz de dar conta da atividade dos grandes pensadores e, portanto, também dos grandes teóricos da política.

Com efeito, ao mostrar que filosofia é também uma ideologia, Gramsci define esta última como ‘unidade de fé entre uma concepção do mundo e uma norma de conduta adequada a ela […]. É por isso, portanto, que não se pode separar a filosofia da política; ao contrário, pode-se demonstrar que a escolha e a crítica de uma concepção do mundo são, também elas, fatos políticos’ (Cadernos do cárcere, v. 1). No mesmo sentido, Lukács define a ideologia como algo que transcende o nível epistemológico e se liga diretamente à ação prática.

Sobre o autor

Carlos Nelson Coutinho é professor titular de Teoria Política na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS–UFRJ). Conhecido no Brasil e no exterior como um dos maiores especialistas na obra de Antonio Gramsci, Coutinho foi responsável pela edição brasileira dos Cadernos do cárcere (Civilização Brasileira, 1999-2002). É autor de vários livros, entre os quais: Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político (Civilização Brasileira, 3. ed., 2007), Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo (Cortez, 2. ed., 2008) e O estruturalismo e a miséria da razão (Expressão Popular, 2. ed., 2010).

Ficha técnica

  • Título: De Rousseau a Gramsci.
  • Subtítulo: ensaios de teoria política.
  • Autor: Carlos Nelson Coutinho.
  • Orelha: Ruy Braga.
  • Páginas: 184.
  • Preço: R$ 38,00.
  • ISBN: 978-85-7559-183-3.
  • Editora: Boitempo.

O enigma do capital e as crises do capitalismo

Livro O enigma do capital e as crise do capitalismo de David Harvey

“O Partido de Wall Street teve seu tempo e falhou miseravelmente. Como construir uma alternativa a partir de sua ruína é tanto uma oportunidade imperdível quanto uma obrigação que nenhum de nós pode ou deveria jamais procurar evitar”. É com essa máxima que o geógrafo acadêmico mais citado do mundo, David Harvey, inicia seu novo livro, O enigma do capital: e as crises do capitalismo, o primeiro de sua autoria a ser lançado pela Boitempo Editorial.

Harvey parte da análise da crise do subprimeimobiliário de 2008 para demonstrar que, apesar de seu alcance e tamanho, ela não difere das crises passadas. Para tanto, o autor estuda as condições necessárias para a acumulação do capital e utiliza rigoroso arsenal teórico ao expor o papel fundamental que as crises têm na reprodução do capitalismo e os riscos sistêmicos de longo prazo que o capital representa para a vida no planeta.

Riscos sistêmicos estes, inerentes ao capitalismo de livre mercado, que os economistas não foram capazes de compreender quando a crise estourou e até hoje parecem não ter ideia do que são ou do que fazer com eles. “Quando os políticos e economistas especializados parecem tão inconscientes e indiferentes à propensão do capitalismo a crises, quando tão alegremente ignoram os sinais de alerta a seu redor e chamam os anos de volatilidade e turbulência iniciados nos anos 1990 de ‘a grande moderação’, então o cidadão comum pode ser perdoado por ter tão pouca compreensão em relação ao que o atinge quando eclode uma crise e tão pouca confiança nas explicações dos especialistas que lhe são oferecidas”, afirma o autor.

Nem sempre, porém, houve essa cegueira generalizada entre os economistas. Segundo Harvey, nos primeiros anos do capitalismo, economistas políticos de todos os matizes se esforçaram para entender os fluxos do capital, mas nos últimos tempos se afastaram do exercício de compreensão crítica para construir modelos matemáticos sofisticados, investigar planilhas e analisar dados sem fim. Qualquer concepção do caráter sistêmico desses fluxos foi perdida sob um monte de papéis, relatórios e previsões.

Com uma capacidade analítica singular, Harvey dirige-se de forma didática e acessível ao leitor pouco familiarizado com o jargão econômico ou marxista, sem ser simplista. Por meio da construção detalhada de cada conceito, torna a leitura gradativamente mais complexa na medida em que uma maior articulação é necessária para explicar a dinâmica do fluxo do capital, seus caminhos sinuosos e sua estranha lógica de comportamento, tarefa fundamental para explicar as condições em que vivemos atualmente.

O enigma do capital: e as crises do capitalismo desnuda as razões para o fracasso da sociedade de “livre mercado”, jogando por terra o argumento de que a crise financeira mundial, que começou em 2008 e está longe de acabar, não tenha precedentes. “Tento restaurar algum entendimento sobre o que o fluxo do capital representa. Se conseguirmos alcançar uma compreensão melhor das perturbações e da destruição a que agora estamos todos expostos, poderemos começar a saber o que fazer”, conclui o autor.

Trecho do livro

O capital é o sangue que flui através do corpo político de todas as sociedades que chamamos de capitalistas, espalhando-se, às vezes como um filete e outras vezes como uma inundação, em cada canto e recanto do mundo habitado. É graças a esse fluxo que nós, que vivemos no capitalismo, adquirimos nosso pão de cada dia, assim como nossas casas, carros, telefones celulares, camisas, sapatos e todos os outros bens necessários para garantir nossa vida no dia a dia. A riqueza a partir da qual muitos dos serviços que nos apoiam, entretêm, educam, ressuscitam ou purificam são fornecidos é criada por meio desses fluxos. Ao tributar esse fluxo os Estados aumentam seu poder, sua força militar e sua capacidade de assegurar um padrão de vida adequado a seus cidadãos. Se interrompemos, retardamos ou, pior, suspendemos o fluxo, deparamo-nos com uma crise do capitalismo em que o cotidiano não pode mais continuar no estilo a que estamos acostumados.

Ao longo dos últimos quarenta anos os quadros institucionais organizados de tal resistência à descivilização do capital foram destruídos, deixando para trás uma estranha mistura de velhas e novas instituições, que tem dificuldades em articular uma oposição coesa e um programa alternativo coerente. Esta é uma situação que prenuncia uma situação de dificuldades tanto para o capital quanto para o povo. Isso leva a uma política de après moi le déluge, em que os ricos fantasiam que podem flutuar com segurança em suas arcas bem armadas e bem aprovisionadas (é isso o que a aquisição de terras globais significa?), deixando o resto de nós com o dilúvio. Mas o rico não pode ter a esperança de flutuar sobre o mundo que o capital fez porque agora literalmente não há lugar algum para se esconder.

Sobre o autor

David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes, além de O enigma do capital (Boitempo), são: A Companion to Marx’s Capital (Boitempo, no prelo) e O novo imperialismo (São Paulo, Loyola, 2004).

Ficha técnica

  • Título: O enigma do capital.
  • Subtítulo: e as crises do capitalismo.
  • Título original: The enigma of capital: and the crises of capitalism.
  • Autor: David Harvey.
  • Tradução: João Alexandre Peschanski.
  • Páginas: 240.
  • ISBN: 978-85-7559-184-0.
  • Preço: R$ 39,00.
  • Editora: Boitempo.

Saídas de emergência: ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo

Certa manhã, Gregor Samsa despertou e viu-se
transformado num enorme inseto

Franz Kafka, Metamorfose

A cidade murada e protegida por alarmes eletrônicos, a cidade globalizada, trancada em seus imóveis inteligentes, a arrogância da riqueza encarnada no biquíni à venda nos Jardins que custa o mesmo que uma moradia numa favela do subúrbio. Cada habitante sabe disso e vive com aquilo que está ao seu alcance

Assim começa a apresentação de Saídas de emergência, livro organizado por Robert Cabanes, Isabel Georges, Cibele S. Rizek e Vera da Silva Telles, que tem como foco as relações entre os habitantes da maior cidade brasileira. Os textos de diversos autores que compõem a coletânea – resultado de longas pesquisas publicadas originalmente na França, em 2009, e agora em português pela Boitempo Editorial – revelam as faces da moeda chamada São Paulo: sexo, drogas e rock ‘n’ roll, emprego, desemprego, violência pública e violência privada. “Os relatos evidenciam as esperanças e as decepções cotidianas, sem ignorar as grandes transformações políticas, econômicas e sociais dos últimos vinte anos”, afirma Michel Pialoux, autor da orelha do livro.

O professor Francisco de Oliveira, autor do prefácio, imaginou para a obra uma forma ao estilo de Kafka: “O que os artigos desse livro indispensável nos descrevem são pessoas transformadas em insetos na ordem capitalista da metrópole paulistana”. No entanto, o caminho escolhido pelos autores dos textos para apresentar as experiências urbanas em prosa foi outro: “são gramscianos”, diz Oliveira, “na medida em que exploram todas as posições, todos os ângulos, todas as expressões e modos de ganhar a vida – na verdade, de ganhar a morte – dos moradores de Cidade Tiradentes, com algumas incursões em Guaianases e outras periferias da cidade”.

Fruto do longo trabalho coletivo de uma equipe composta por pesquisadores mais experientes ao lado de outros mais jovens, de origens e gerações diferentes, os 21 artigos se referem a diferentes “saídas de emergência” e a uma multiplicidade de ângulos de abordagem. “Trata-se da maneira como aqueles que estão submetidos às relações de dominação na cidade tentam superá-las, às vezes procurando construí-las em escala maior que a de seu meio social, por percursos que passam por formas de trabalho e atividade, religião, vida em comum e recomposições familiares”, explicam os organizadores do livro. As estratégias de vida, observadas nas pessoas e nas famílias, representam modos tanto de fugir da responsabilidade direta do trabalho quanto de ressignificá-lo por meios indiretos. O tráfico, por exemplo, é referência econômica (garante a sobrevivência de muitas pessoas), social (ajuda pessoas ou associações) e moral (impregna a vida cotidiana com seus modos de pensar e agir).

Frente à complexa realidade urbana, os pesquisadores não fantasiam a honra e o caráter de suas “personagens”; nenhum afirma que o Jardim Maravilha é uma maravilha. “A consciência crítica atenta não resvala em glorificação da pobreza e de sua situação na cidade capital do gigante emergente”, reconhece Oliveira. “A fronteira entre o legal e o ilegal, o lícito e o ilícito, o formal e o informal, não é erguida por eles: é a fantasia jurídica do capitalismo ‘globalitário’”.

Trechos do livro

“No início, o relato de Ismael revela leveza e confiança na vida, pouco consciente de seu meio. Sua maneira de contar sua vida em São Paulo muda: ele sente a necessidade de se interrogar, de se autocriticar, de refletir a respeito de sua relação com o outro para chegar a seus objetivos, de se preocupar com o outro enquanto indivíduo (sua filha, sua esposa). A dificuldade dessa reflexão implica a observação de que a moral se perde, tanto a individual familiar quanto a religiosa. Se nada mais é como antes, nem no tempo nem no espaço, o que lhe resta é continuar a trabalhar, sendo mais atento com o salário, catando nas ruas quando não há trabalho, acompanhando as doenças, seguindo os filhos numa longa adolescência, sem esperar nada da política ou da religião. Já que ele não “engole” mais a vida, pelo menos não se deixa engolir por ela”.

“A renovação do setor associativo (habitação, saúde, educação, alimentação) é alimentada por formas de descentralização, privatização e terceirização dos serviços públicos nos bairros de baixa renda, assim como pelo esfacelamento dos antigos movimentos reivindicativos – já que o neoliberalismo dominante incita essa população a agir, em vez de reivindicar. Essa ação repousa, em grande parte, na atividade das mulheres desses bairros. As cooperativas constituem outra vertente desse novo tecido de atividades sociais e econômicas. A renovação do setor informal e associativo corresponde também ao desaparecimento de amplas parcelas do emprego formal (serviço e indústria), em especial entre as atividades que estão em via de se informalizar (confecção, automóvel, terceirizações em todos os setores), à emergência de formas de trabalho pouco controladas (telemarketing) e ao desenvolvimento de atividades antigas não formalizadas (coleta e reciclagem do lixo)”.

Autores

Carlos Freire da Silva, Mônica Virgínia de Souza, Rafael Godói, Daniel Veloso Hirata, Gabriel de Santis Feltran, Tatiana de Amorim Maranhão, José César Magalhães, Silvia Carla Miranda Ferreira, Ludmila Costhek Abílio, Daniel De Lucca Reis Costa, Eliane Alves da Silva, Ronaldo de Almeida, Ariana Rumstain, e Yumi Garcia dos Santos, além dos próprios organizadores.

Ficha técnica

  • Título: Saídas de emergência
  • Subtítulo: Ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo.
  • Autor: Robert Cabanes, Isabel Georges, Cibele S. Rizek e Vera da Silva Telles (orgs.).
  • Prefácio: Francisco de Oliveira.
  • Orelha: Michel Pialoux.
  • Páginas: 480.
  • Preço: R$ 48,00.
  • ISBN: 978-85-7559-182-6 .
  • Editora: Boitempo
  • Informações: Ana Yumi Kajiki. Email: comunicacao@boitempoeditorial.com.br – 55 11 3875 7285 / 55 11 8777 6210.