Onde começa a extrema-direita

A extrema-direita

“Com o levantar da cabeça de um racismo normalmente escondido por detrás do orgulho histórico, tudo pode mudar se o invisível, como parece estar acontecer, se der a ver.” Texto de Luís Trindade publicado na revista Esquerda.

Uma discussão é sempre bem-vinda e nos últimos dois anos tivemos alguns motivos de satisfação. Desde as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa na ilha de Gorée, em Abril de 2017, e passando depois pelo debate em torno da proposta da câmara de Lisboa para a criação de um Museu dos Descobrimentos, já em 2018, alguns dos tópicos mais familiares da historiografia e cultura portuguesas – a expansão ultramarina, o império português, a memória colonial – entraram no espaço público com uma frequência e intensidade pouco comuns. Numa entrevista recente ao Diário de Notícias, o historiador José Pedro Monteiro podia aliás fazer já um balanço disso mesmo, defendendo que a “batalha constante de argumentos, de reformulações, de proposta de novas revelações” ao longo destes dois anos de debate tinha gerado “novos conhecimentos, novos argumentos, novos testemunhos”(1).

Monteiro falava a propósito do lançamento do seu livro Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, um retrato impiedoso da violência colonial no império português em pleno século XX, o que lhe permite revisitar e re-situar um aspeto importante de toda discussão: “o facto de a abolição da escravatura ter resultado na generalização do trabalho forçado faz com que nas discussões públicas a questão do trabalho forçado quase não apareça.” Quem acompanhou minimamente os termos do debate sabe a que se refere José Pedro Monteiro: a violência e exploração do expansionismo imperial foram objeto de um corte temporal que as remeteu para uma dimensão distante, estranha ao presente do próprio debate, como se uma descontinuidade radical nos separasse de todos os “aspectos negativos” ou “efeitos laterais” (como alguns, ingénua, ou mais cruelmente, se referiram à escravatura) do processo histórico.

Acusar de anacronismo os que procuraram assumir o olhar do presente sobre o passado, torna-se subitamente mais difícil perante o objecto de Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, debruçado sobre o período entre 1944 e 1962, ou seja, num tempo que é ainda vivido como parte da nossa contemporaneidade. Mas ao envolver, desta forma, o presente do debate no passado histórico que lhe serviu de objecto, a entrevista a José Pedro Monteiro deixou mais claramente à mostra, retrospetivamente, o que de facto se tem andado a discutir nos últimos dois anos. A proximidade temporal, mas também o poder de choque da imensa violência sistematizada pelo historiador, dão a medida do quanto ainda temos de debater, enquanto comunidade, o colonialismo.

As tomadas de posição coletivas, que constituíram alguns dos momentos mais significativos da discussão, revelam todas esta motivação: as “cem pessoas negras” que, “excluídas do corpo nacional, assist[em] a uma disputa pela memória que reforça a glorificação da ideologia colonial”(2); os cientistas sociais ao reconhecer o aparecimento desses mesmos “grupos de afrodescendentes que querem uma história justa”(3); os “profissionais do sector cultural e científico” ao querer “aproveitar esta oportunidade para refletir sobre o passado colonial português e as suas ramificações no presente”(4); e até a ideia, de sentido oposto, apresentada numa petição encabeçada pelo presidente da Nova Portugalidade, de que o museu devia ser “um factor de união, compreensão e aproximação entre povos irmanados pelo grande projeto científico, tecnológico, logístico e cultural dos Descobrimentos” (5): todas estas posições apontam numa mesma direção: o colonialismo como horizonte epistémico do debate, mesmo quando surge – tal é o caso da petição nacionalista –, implicitamente, na forma de negação.

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O tempo do debate

Na realidade, um dos aspectos mais decisivos de toda a discussão, vista agora em conjunto, foi precisamente sobre a definição do seu objeto. No verão de 2017, o historiador Paulo Pinto lançou um repto neste sentido a João Pedro Marques (JPM), especialista em história da escravatura e de longe o mais ativo interveniente no debate. O problema, para Pinto, era que “a memória dos portugueses enquanto povo permanece truncada no que diz respeito ao nosso passado colonial, ofuscada por ‘descobrimentos’, feitos, heróis, pioneirismo, brandos costumes e excecionalismo”, e que era portanto importante trazer a discussão “do plano académico ou histórico” para o “da opinião pública e da memória coletiva”, a fim de podermos confrontar “velhas questões enraizadas, como a existência de problemas raciais em Portugal.”(6) Ou seja, antes de ser uma questão historiográfica, esta seria uma discussão sobre as condições em que atualmente se olha para o passado na sociedade portuguesa.

JPM recusou-se então a aceitar os termos da discussão, argumentando que é impossível estabelecer nexos de causalidade “a uma distância de 200, 300, 400 anos”, e acusando depois o seu interlocutor de querer manter a história refém da memória e a partir daí criar novas mitologias sobre o passado. Em termos muito claros (que Pinto, em réplica, acusaria de “compartimentos estanques” e “simplificações grosseiras”), a história surge aqui como “coisa séria”, que “não se faz em comícios”, e que “serve para dizer aos cidadãos o que é verdade e o que é mentira.”(7) Poder-se-ia dizer que a historiografia, para JPM, está epistemologicamente mais próxima do seu próprio objecto de estudo – o século XIX do positivismo, onde a ciência funciona como critério de verdade e a história como narrativa do que realmente aconteceu – do que do presente do debate, entretanto permeado por intervenções frequentes, da academia e fora dela, insistindo sobre o défice de memória do colonialismo e o racismo como persistência histórica na sociedade portuguesa(8).

É interessante perceber um pouco melhor – até pela posição central que foi ocupando no debate – esta recusa em “trazer para a praça pública algo que já foi profusamente debatido – repito: profusamente debatido – e que já não existe”(9), ou seja, a escravatura segundo JPM. A intervenção do historiador assenta sobretudo em duas teses (desenvolvidas em obras como Os Sons do Silêncio e, mais recentemente, Escravatura): em primeiro lugar, a de que os portugueses não só não foram pioneiros no tráfico de escravos (“antes já os muçulmanos o praticavam em larga escala através do Sara, do Índico e do mar Vermelho”(10)) como contaram sempre com a colaboração dos próprios africanos (o que tornaria injustificáveis quaisquer pedidos de desculpa por parte do Estado português); em segundo lugar, que o único papel original que Portugal, enquanto parte de uma mais vasta “cultura ocidental”, desempenhou em todo o processo, foi na abolição da escravatura: “o abolicionismo é uma ideologia (e uma prática política) emanada do mundo ocidental. Não houve abolicionismos asiáticos ou africanos, a não ser como reflexo do movimento desencadeado pelos ocidentais.”(11)

Em geral bem informado e estruturado, o argumento de JPM surpreende aqui pela ingenuidade com que reproduz a narrativa emancipatória da modernidade. Não há na sua história qualquer eco da crítica ao iluminismo como razão instrumental e governamentalidade, as fundações mentais da expansão do imperialismo e capitalismo europeus à escala global. O que há, no século de XIX de JPM, é um conjunto de “europeus e americanos” com um “sentimento muito agudo de arrependimento e de injustiça”, que, desconhecendo o “papel muito ativo no horrível negócio” por parte das “autoridades africanas”, “viam os africanos e o próprio continente como vítimas passivas e inocentes da cobiça europeia”, pelo que “cabia ao Ocidente, custasse o que custasse, pôr fim a tais horrores.”(12) Semelhante ingenuidade torna-se quase obtusa quando, em nova polémica já no final de 2017 – com o sociólogo Elísio Macamo, que reagira, precisamente, a esta narrativa branda da aventura iluminista europeia – JPM alarga o que antes mantivera firmemente no âmbito da historiografia (a escravatura como algo que já foi profusamente debatido e que já não existe) para mais próximo da nossa contemporaneidade.

Macamo, a dado passo, pergunta se não celebrar Hitler não seria uma forma de ‘presentismo’, de pensar ‘fora da história’(13), como JPM acusara os que insistem em projetar sobre o passado valores que pertencem, segundo ele, exclusivamente ao presente. A resposta interessa-nos, sobretudo, por nos trazer de volta à questão do colonialismo e do trabalho forçado no século XX e, mais especificamente, mostra-nos como a recusa em aceitar que todas as posições no debate estão igualmente implicadas no presente, mesmo as mais orgulhosas da sua autoridade académica, deixa estas vulneráveis perante as armadilhas do passado. Para JPM, “a rejeição da escravatura está interiorizada na cultura europeia” do século XX. Assim sendo, não só “Hitler não agiu de acordo com os padrões do seu tempo”, como a segregação racial na África do Sul e nos Estados Unidos foram “anomalias altamente contestadas no resto do mundo ocidental”(14).

O mundo ocidental, na perspectiva de um positivismo particularmente pobre na sua linearidade, surge assim como uma entidade plana e unívoca, onde não é possível ver contradições nem fenómenos que a narrativa de JPM nos garante estarem interiorizados. Como corolário desta visão singular do nosso passado recente, “segregação e trabalho forçado não são escravatura”(15), uma vez que, recorde-se, a última era coisa do passado já completamente resolvida, insusceptível de qualquer traço no presente.

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As posições ideológicas

De todas as potenciais formas de negacionismo a que a posição de JPM o deixa à mercê, não conseguir vislumbrar no racismo e exploração colonial contemporâneas uma interiorização mais funda do que a da rejeição da escravatura, parece-me apesar de tudo menos relevante do que o modo como outra forma de inconsciente político, a do viés nacionalista, permeia toda a sua intervenção no debate. Ou seja, mais do que discutir a história da escravatura enquanto tal – e menos ainda do que entrar na contabilidade da participação portuguesa no negócio, prática ligeiramente obscena (como se a questão fosse um lugar no ranking ou o número de milhões de escravos) a que se entregou tanto JPM como alguns dos seus oponentes – o que me parece interessante verificar é o modo como o nacionalismo se insinuou pelo debate com a sua eficácia habitual: enquanto senso comum, posição neutra, contra a qual todas as outras se tornaram necessariamente políticas e ideológicas – sobretudo a dos que assumiram que o aspeto mais importante da discussão era, é, o colonialismo, e não as descobertas.

A vantagem do nacionalismo é que, enquanto ideologia, passa menos pelo conteúdo do que pela performance com que se banaliza, como se não fosse, ele próprio, ideológico. Em JPM, a autoridade do historiador, como vimos, é o que serve para desqualificar todos aqueles que entram na discussão sob o efeito enganador da memória. Por um lado, “há aqueles que não têm tabus nem pedras no sapato relativamente a esse passado”, depois “há os que, pelo contrário, olham para ele (…) com vergonha e vocação penitente.”16 Mas não se trata apenas de ignorância e falta de frieza científica. Há também preconceito e má-fé. “As pessoas de que falo” – “por estranho que pareça, há muita gente a pensar assim”(17) – são os que quando se fala de escravatura, atribuem toda a culpa aos portugueses – “há muitas pessoas que se esfalfam e se esfolam para tentar demonstrar que a culpa dessa barbaridade foi toda dos brancos, e dos portugueses, em primeiro lugar” – mas quando se fala de descobrimentos, já dizem que houve “encontro de culturas.”(18) O último ponto é equívoco, pois para muitos dos críticos da ideia de descoberta, a questão é precisamente contar a história inteira – das viagens ao colonialismo – dentro de uma narrativa relacional (e invariavelmente marcada pela violência).

Mas o que aqui me parece mais interessante, é o modo como o outro da discussão é, senão exatamente o estrangeiro, pelo menos o antipatriota, o que entra na discussão para rebaixar Portugal. Isto serve, por um lado, para normalizar a nação como a premissa que já lá está mesmo antes da discussão começar: ‘os povos evocam e celebram os seus feitos, não os seus defeitos’.(19) Daqui, é depois fácil chegar à história nacionalista propriamente dita: desqualificando a pretensão de “dar aos descendentes dos militarmente mais fracos, dos vencidos, dos ocupados, o orgulho póstumo de terem tido uma participação ativa nos mais importantes acontecimentos da história do mundo”, primeiro; e reforçando, depois, a velha e familiar retórica da epopeia: “ora, é preciso que os que foram protagonistas não sejam retirados da imagem nem fiquem nas filas de trás. Os Descobrimentos e a subsequente expansão deram-se porque houve gente que se meteu em navios e foi procurar mundo.”(20)

A estrutura nacionalista da narrativa – porque é, insisto, acima de tudo uma questão formal e performativa – começa portanto por desqualificar o adversário. A posição que, no debate, criticou as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa ou o nome do projeto do Museu dos Descobrimentos foi, em diferentes momentos, identificada como a dos flagelantes – “pessoas bem-intencionadas, mas pouco ou mal informadas”(21) –, ativistas – “jornalistas de causas, ingénuos bem-intencionados, historiadores engagés”(22) – uma gente com “toneladas de preconceitos ideológicos”(23), de uma ideologia aliás particularmente perniciosa, de “certos sectores da nossa esquerda, em particular os mais ligados às Ciências Sociais e Humanas”(24) (a equivalência entre sociologia e socialismo como um tropo salazarista por excelência), em deriva radical a caminho da “extrema-esquerda”(25) ou, porventura pior, “na velha tradição marxista-leninista da autocrítica”.(26)

Um ponto alto deste imaginário terá sido a comparação com os “talibãs afegãos”(27) (outro nacionalista, Renato Epifânio, falaria dos “talibans do politicamente correto”(28)), o que nos permite completar uma lista praticamente exaustiva de todos os espectros agitados enquanto ameaças ao ocidente desde a guerra fria e das lutas anticoloniais. Neste contexto, “o Ocidente está doente, minado por dentro. Há um processo revolucionário em curso de que muita gente ainda não se deu conta e que tenta levar a cabo uma transformação cultural.”(29) Dada a natureza cultural da transformação, “essa revolução em curso não está a ser feita de armas na mão, mas sim nas salas de aulas das escolas e universidades ocidentais.” Naturalmente, “Portugal não está imune a isso. Aliás, vários dos nossos académicos e dos nossos estudantes reproduzem os modelos e procedimentos que lhes chegam dos Estados Unidos.”(30) Aqui chegados, nada distingue a posição do historiador no debate – aquela posição que, como vimos, estaria acima de quaisquer preconceitos ideológicos – da retórica isolacionista do salazarismo, não por acaso a cultura política que sistematizou e normalizou o nacionalismo português contemporâneo.

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A ideologia do nacionalismo

O caso de JPM é-nos útil por três razões: a sua intervenção foi contínua ao longo dos últimos dois anos, cobrindo todos os aspetos que a discussão foi tomando; não é, assumidamente, um nacionalista, mas um historiador de referência num tema particularmente sensível na história do império português; finalmente, precisamente por se tratar de um discurso desafiante para a análise do nacionalismo – que emerge, explícita mas quase inadvertidamente nas formas do argumento – ilustra o poder que este tem em se fazer passar pela natureza das coisas. É assim importante cotejar toda esta retórica com o que dizem aqueles que assumiram posições declaradamente nacionalistas. Quando Jaime Nogueira Pinto, por exemplo, fala de uma “doença cultural que atravessa o Ocidente” e divide o debate entre “pessoas descomplexadas, independentes, conscientes da sua própria identidade e subjectividade e pessoas obcecadas pela enfermidade do ‘politicamente correto’”(31), isto não é apenas uma coincidência entre coisas praticamente idênticas ditas por gente diferente, mas uma verdadeira cristalização do nacionalismo enquanto doxa.

É desta posição no debate que depende, não só a capacidade dos nacionalistas em falar de descobertas sem falar de colonialismo, mas de banalizar, depois, as versões mais apologéticas da história nacional: “dessa empresa tão sofrida resultou o orgulho de ter sido Portugal o iniciador da Era Gâmica, a que hoje chamamos globalização e pela qual o Norte encontrou o Sul, e o Sul o Norte”, pode ler-se na petição da Nova Portugalidade. Não é necessário um esforço interpretativo particularmente sofisticado para identificar o preconceito nacionalista – a petição nunca o esconde, de resto: “não se compreende (…) de que modo seria de desprezar o ‘ponto de vista português’ em acontecimentos de que foram os portugueses pioneiros e protagonistas” – ou a hipérbole com que se atribui a Portugal um protagonismo histórico.

Mas também não é isso o mais importante. O ponto aqui decisivo é o de um poder discursivo que, ao normalizar a excecionalidade das “descobertas” numa narrativa épica, corta relações diacrónicas, recalca memórias históricas e oculta sujeitos sociais. Percorrendo a página de Facebook da Nova Portugalidade, percebe-se que a ferramenta ideológica nem é tanto a da tolerância racial luso-tropicalista (esta serve, afinal, para mitigar o colonialismo, mas o problema do debate foi, como vimos, a tentativa de fazer parecer com que o colonialismo nunca tivesse existido) mas uma tradição cultural mais longa e insidiosa, a da Filosofia Portuguesa, corrente intelectual com largos pergaminhos no nacionalismo cultural português – sendo a lusofonia o seu mais visível avatar contemporâneo –, e que reclama para Portugal a personificação de um destino universal.

Não por acaso, entre os momentos do debate que chegaram à página de Facebook do grupo nacionalista, estão precisamente intervenções de historiadores que assentam nesta narrativa épica. Do que me pude aperceber, não há aí nenhuma referência a João Pedro Marques. Uma história baseada no tráfico de escravos, por mais arrumada que esteja lá longe no passado, provoca ainda assim um atrito aparentemente incompatível com a celebração de Portugal que percorre a página. Já o comunismo de António Borges Coelho provocou menos problemas – pelo contrário, aliás, as ideias do historiador foram salientadas para mostrar como a portugalidade está para além das diferenças políticas – quando se tratou de reconhecer a façanha de “um pequeno país, uma anedota de país, que são 89 mil quilómetros quadrados” e que “esteve na vanguarda do planeta”.(32)

Outras referências na página foram feitas a uma entrevista de João Paulo Oliveira e Costa – “se dermos aos Descobrimentos a imagem não de um processo português, mas de um processo mundial desencadeado pelos portugueses, passa a ser uma palavra mundial que reflete aquilo que aconteceu de facto”(33) – e a um artigo de Luís Filipe Thomaz – os portugueses “deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana.”(34) Nenhum destes historiadores escamoteia a violência do processo – embora por vezes em forma de eufemismo, como quando Thomaz se refere à “intensificação da escravatura” ou “à difusão da sífilis americana no Velho Mundo”, como “efeitos laterais”(35) –, mas isso é, em última análise, um mero aspeto episódico, diluído numa narrativa global em que os portugueses epitomizam, com todas as suas “virtudes” e “defeitos”, nada menos que a própria humanidade.

Por outras palavras, e para concluir, enquanto percursor da modernidade, pioneiro da globalização, Portugal cumpre um papel messiânico na história universal. Tal messianismo, na desproporção histórica do seu argumento, é finalmente o que na mentalidade nacionalista ocupa o papel desempenhado pelo colonialismo para aqueles que, ao questionarem um nome de museu ou ao exigirem um pedido de desculpa, têm procurado revisitar mais criticamente a história de Portugal, descolonizando-a: o que aqui está em causa, afinal, é um desacordo sobre o próprio lugar do debate, como vimos no início. Por um lado, e pelo menos pelo que até aqui nos foi dado a ver, estão aqueles que continuarão a fazer história a partir do centro que julgam ocupar no mundo. Por outro, uma atitude intelectual disponível para um gesto teórico de desidentificação, que começa por reconhecer como o outro foi desde sempre sobre-identificado pelo Europeu, e que, através da abertura a perspetivas não eurocêntricas, nos permita relativizar, ou descentrar, os pontos de vista do debate – no fundo, um percurso que nos equipe com as ferramentas elementares da teoria pós-colonial, escondida por detrás do recurso ao politicamente correto como insulto, mas que foi na verdade o problema subjacente ao longo dos últimos dois anos.

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Post-scriptum

No momento em que escrevo este texto, circulam pelas redes sociais dois vídeos onde forças policiais agridem cidadãos negros em subúrbios lisboetas. Pelos mesmos dias, um homem condenado por crimes de ódio racial foi entrevistado num canal de televisão generalista que o apresentou como “autor de umas declarações polémicas.” O estatuto destes dois conjuntos de imagens é diametralmente oposto. O segundo foi um acontecimento mediático, a projeção pública de uma figura que perfilha ideias até aqui sem grande expressão na sociedade portuguesa, em nome de uma guerra de audiências entre dois canais televisivos. O primeiro conjunto de imagens, pelo contrário, mostra o que suspeitamos ser prática corrente nesse imenso espaço invisível, os subúrbios, e devemo-lo a câmaras de telemóvel escondidas.

Nenhum destes acontecimentos se relaciona diretamente com a “era gâmica” de que se orgulha a Nova Portugalidade. E, no entanto, o próprio sucesso desse nacionalismo baseado na ideia de viagem e descoberta, em que Portugal teria aberto o caminho para a globalização, depende rigorosamente da invisibilidade doque são, hoje, os traços do colonialismo na sociedade portuguesa. Em certo sentido, pelomenos até aqui, a insignificância da extrema-direita declaradamente racista deve-se a essa invisibilidade, ou seja, a um outro tipo de racismo, mais sistemático, que marginaliza e deixa fora do espaço público uma parte da população, precisamente aquela que evoca, pela sua presença, o passado colonial. A performatividade ideológica do nacionalismo no seu ponto mais subtil e eficaz funciona então assim, mantendo invisível, em nome de uma certa ideia de Portugal, a própria sociedade portuguesa.

Mas como estes dias têm também sugerido, com o levantar da cabeça de um racismo normalmente escondido por detrás do orgulho histórico, tudo pode mudar se o invisível, como parece estar acontecer, se der a ver. Nesse caso, talvez já estejamos a viver, não uma, mas duas descobertas: a da irrupção da cidadania negra no espaço público, e a do racismo larvar, cuja violência – na velha tradição colonial portuguesa – não deixará de lhe responder. A vantagem destas descobertas será, precisamente, a sua visibilidade. Mais do que num museu sob o pretexto do passado, o colonialismo português passará a ver-se, politicamente, no presente.

Notas

  1. Fernanda Câncio, entrevista a José Pedro Monteiro. “E manda ainda o senhor Deus pretos a este mundo?”, Diário de Notícias, 29-12-2018.
  2. “Não a um museu contra nós!”, Público, 22-6-2018.
  3. “A controvérsia sobre um Museu que ainda não existe. Descobertas ou Expansão?”, Expresso, 12-4-2018.
  4. “Agentes culturais contra a designação e missão do “Museu da Descoberta” da Câmara Municipal de Lisboa”, Público, 22-5-2018.
  5. “Lisboa precisa de um Museu dos Descobrimentos, da Expansão e da Portugalidade”, Petição Pública.
  6. Paulo Pinto, “Torres de marfim e poeira amnésica”, Público, 26-7-2017.
  7. João Pedro Marques, “Memória não é História (e às vezes nem sequer é verdade)”, Público, 28-7-2017.
  8. Ver, por exemplo, Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, “Portugal ainda resiste a olhar para o seu passado de forma desassombrada e crítica”, Público, 9-7-2018.
  9. João Pedro Marques, “Porquê e para quê voltar à escravatura 150 anos depois?”, Público, 31-5-2017.
  10. João Pedro Marques, “Pior é impossível. Portugal e a escravatura na lupa politicamente correcta”, Obsevador, 25-7-2018.
  11. João Pedro Marques, “Marcelo e a Escravatura: 20 valores”, Público, 18-4-2017.
  12. João Pedro Marques, “Quantas vezes terá Portugal de pedir desculpa?”, Público, 27-9-2017.
  13. Elísio Macamo, “Só há um absoluto: não há absolutos”, Público, 30-11-2017.
  14. João Pedro Marques, “Uma mão cheia de enganos”, Público, 5-12-2017.
  15. Idem.
  16. João Pedro Marques, “O passado de Portugal e os advogados do diabo”, Público, 26-6-2018.
  17. João Pedro Marques, “Dois pesos e duas medidas”, Público, 1-6-2018.
  18. Idem.
  19. João Pedro Marques, “O passado de Portugal e os advogados do diabo”, Público, 26-6-2018.
  20. João Pedro Marques, “Dois pesos e duas medidas”, Público, 1-6-2018.
  21. João Pedro Marques, “Os flagelantes e a escravatura”, Público, 18-7-2017.
  22. João Pedro Marques, “Porquê e para quê voltar à escravatura 150 anos depois?”, Público, 31-5-2017.
  23. João Pedro Marques, “Portugal e a escravatura: dois mal-entendidos”, Observador, 6-7-2018.
  24. João Pedro Marques, “Pedir desculpa pela escravatura? Três razões para não ir por aí”, Diário de Notícias, 18-5-2018.
  25. João Pedro Marques, “Na foz do Dande há 174 anos”, Público, 8-2-2018.
  26. João Pedro Marques, “Marcelo e a Escravatura: 20 valores”, Público, 18-4-2017.
  27. João Pedro Marques, “Falinhas Mansas”, Diário de Notícias, 22-8-2017.
  28. Renato Epifânio, “Bora lá derrubar mais umas estátuas?”, Público, 2-9-2017.
  29. João Pedro Marques, “Estátuas caídas e outras aberrações politicamente correctas”, Observador, 31-8-2018.
  30. Idem.
  31. Alexandre R. Machado, “Museu das “Descobertas” ou da “Expansão”? Nome abre guerra entre historiadores”, Sábado, 15-5-2018.
  32. Isabel Lucas, entrevista a António Borges Coelho, “Sem a prisão e a preocupação pelas minorias eu não teria ido para História”, Público, 16-12-2018.
  33. José Cabrita Saraiva, entrevista a João Paulo Oliveira e Costa, “Antes dos descobrimentos nenhum ser humano sabia como era o planeta”, Sol, 14-8-2018.
  34. Luís Filipe Thomaz, “Por um Museu dos Descobrimentos”, Observador, 6-8-2018.
  35. Idem.

Publicado em fevereiro na revista Esquerda.

Há 80 anos, olimpíada alternativa em Barcelona desafiava Hitler e Alemanha nazista

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Olimpíada Popular foi organizada como contraponto a Jogos de Berlim de 1936, mas foi atropelada por golpe de Estado que desencadeou Guerra Civil espanhola.

opera mundiA tarde do dia 19 de julho de 1936 deveria ser marcada por uma grande celebração em Barcelona. Exatamente às quatro da tarde, 5.000 atletas e 3.000 folcloristas começariam a desfilar no estádio de Montjuïc, para celebrar o espírito esportivo, a paz e a fraternidade. Seria a cerimônia de abertura da Olimpíada Popular, evento organizado como um contraponto aos jogos oficiais, que em 15 dias seriam inaugurados na Berlim capital da Alemanha nazista e entrariam para a história como os jogos de Hitler.

Se o projeto da Olimpíada Popular nasceu para desafiar o nazismo alemão, foi o fascismo espanhol que acabou impedindo que as competições acontecessem. Na véspera da cerimônia de abertura, ocorreu o golpe de Estado mal sucedido que desencadeou a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Desta forma, a Olimpíada Popular, que seria realizada entre 19 e 26 de julho, terminou tragicamente, sem que nem mesmo tivesse começado.

A origem desta empreitada que seria a Olimpíada Popular remonta à escolha da cidade que sediaria os jogos de 1936. A eleição de Berlim como sede das Olimpíadas havia acontecido em 1931, quando a Alemanha ainda vivia sob a democrática e instável República de Weimar. Na ocasião, Barcelona havia sido a principal adversária de Berlim, sendo considerada a favorita entre as dez cidades candidatas, incluindo o Rio de Janeiro. A capital catalã já havia realizado uma bem-sucedida Exposição Universal em 1929, tendo montado uma estrutura turística e hoteleira que seria reutilizada como vila olímpica e construído um estádio com capacidade para receber os jogos na colina de Montjuïc.

Apenas dez dias antes da escolha da cidade-sede dos jogos de 1936, em 14 de abril de 1931, ocorreu a proclamação da 2ª República Espanhola, o que teria sido determinante para a derrota de Barcelona. Diversos membros do COI (Comitê Olímpico Internacional), desconfiados do governo republicano recém-eleito, decidiram optar por Berlim. A votação foi realizada por correspondência e o placar final foi de 43 a 16.

Apenas dois anos depois, porém, o Partido Nazista ascenderia ao poder na Alemanha e, em pouco tempo, o país mergulharia em uma feroz ditadura. O temor de que as Olimpíadas de 1936 se tornassem um evento global de propaganda do regime e dos ideais nazistas fez surgir uma ampla campanha internacional de boicote. O movimento reuniu desde a esquerda tradicional e grupos liberais até entidades judaicas, passando por federações esportivas e atletas que acreditavam que as Olimpíadas não deveriam ser utilizadas para tais fins.

A contestação aos Jogos de Berlim: do boicote à Olimpíada Popular

A ideia de realizar uma olimpíada alternativa nasceu no seio da campanha de boicote internacional. Além da Espanha, tal movimento ganhou repercussão – ainda que efêmera – em países como Grã-Bretanha, França, Suécia, Tchecoslováquia e Holanda, tendo força particular nos Estados Unidos, onde algumas federações debateram a adesão ao boicote e parte da comunidade judaica se mobilizou pela causa. Alemães exilados também fizeram campanha contra os jogos e, individualmente, atletas judeus de diversas nações aderiram ao movimento.

Como forma de esvaziar a campanha de boicote, o governo nazista tomou providências para suavizar sua imagem nos meses que antecederam os jogos. Símbolos antissemitas foram retirados das ruas e, apesar da exclusão dos atletas de ascendência judaica das federações alemãs, foram aceitas algumas poucas exceções, como a esgrimista Helene Mayer. A decisão dos Estados Unidos, em dezembro de 1935, de participar das Olimpíadas de Berlim enfraqueceu o movimento de boicote e, ao final, apenas a Espanha, que à época já estava em guerra civil, se manteve fora das competições.

A decisão de realizar um evento paralelo às Olimpíadas de Berlim aconteceu relativamente tarde. Embora a ideia já estivesse ganhando força na Espanha e no movimento internacional que defendia o boicote, foi decisivo o resultado da eleição espanhola de fevereiro de 1936. Naquele momento o país encarava o seu pleito mais acirrado. A formação de uma ampla coalização, a Frente Popular, levou a esquerda espanhola a uma apertada vitória. A candidatura reunia republicanos progressistas, socialistas, comunistas e grupos que defendiam uma maior autonomia regional, contando até com o apoio indireto dos anarquistas. Na Catalunha foi eleito Lluís Companys, político republicano de esquerda, que apoiou a realização da Olimpíada Popular e foi convertido em presidente de honra do evento.

No mês de abril, o recém-criado Comitê Catalão Pró-Esporte Popular (CCEP), formado por diversas organizações, envia uma carta ao novo presidente espanhol, Manuel Azaña, criticando o financiamento previsto pelo governo anterior para a ida de esportistas ao evento alemão. No documento, a associação afirmava que “o regime nacional-socialista utiliza o movimento esportista para seus fins reacionários, para a militarização da juventude e para a preparação da guerra”, como relata o livro “L’Altra Olimpíada” (A Outra Olimpíada, em catalão), dos historiadores Carles Santacana e Xavier Pujadas. Na carta, o CCEP solicitava que o dinheiro fosse utilizado para financiar o esporte popular e realização da Olimpíada paralela.

Sem esperar resposta do governo, o CCEP começa a articular com diversas outras entidades a viabilização da Olimpíada Popular, com a criação do Comitê Organizador no início de maio. No ato de constituição, é reforçado o carácter de contraposição ao evento alemão, mas não às Olimpíadas em si: “os organizadores da Olimpíada Popular querem a afirmação do verdadeiro espírito olímpico, do ‘fair play’ e do ‘jogo honrado’, e é por isso que essa será a verdadeira festa olímpica da Paz e da Fraternidade”.

Com a formação do Comitê Organizador há menos de três meses das competições, concretizar o evento não foi simples, ainda mais com um orçamento pequeno. A Olimpíada contou com um financiamento modesto, mas importante, dos governos de Catalunha, Espanha e França, à época também sob um governo de Frente Popular. Apesar de relativamente bem estruturada, a capital catalã não estava preparada para receber as milhares de pessoas que viriam para participar e acompanhar o evento, e o Comitê recorreu ao apoio de diversas associações e clubes, inclusive do Barcelona, para atender as demandas.

Além destas dificuldades, a Olimpíada Popular sofreu uma oposição implacável da direita e dos conservadores espanhóis, que em seus jornais chamavam o evento de “Olimpíada Vermelha”. Os críticos ainda afirmavam que a realização e o uso do termo Olimpíada eram uma afronta ao COI e que nunca mais Barcelona realizaria os jogos olímpicos.

Como seria a Olimpíada Popular?

O evento contaria com 16 modalidades. Haveria esportes olímpicos tradicionais, como futebol, rúgbi, basquete, handebol, beisebol, boxe, tênis, tênis de mesa, atletismo, natação, ciclismo, remo, tiro e luta, além de outros hoje não presentes: pelota basca e xadrez. Os jogos contariam ainda com exibições de ginástica e aviação sem motor. Além disso, as competições seriam acompanhadas de uma programação cultural, com mais de 3.000 artistas participando de atividades folclóricas como danças populares, música e teatro. Esta programação contemplava a concepção de que as duas dimensões – esporte e cultura – eram inseparáveis e contribuíam à formação integral dos indivíduos.

Um dado impressionante é que os jogos alternativos de Barcelona contariam com um número de participantes maior que o de Berlim, embora não contasse com todos os atletas de ponta como o evento oficial. A capital alemã recebeu pouco mais de 4.000 atletas de 49 países, enquanto da Olimpíada Popular participariam cerca de 6.000 esportistas de 23 países. Ainda eram esperadas outras 20 mil pessoas para acompanhar os jogos. A maior delegação estrangeira era a francesa, com 1.500 atletas, sendo 500 de federações oficiais, seguida da Suíça com 200 e da Bélgica, Holanda e Reino Unido, com 50 esportistas cada.

A Olimpíada Popular, além de receber delegações nacionais, possibilitou a inscrição de equipes regionais e locais, como forma de quebrar o monopólio estatal sobre a representação esportiva. Foram inscritas, por exemplo, delegações de Catalunha, País Basco e Galícia, na Espanha, e da Alsácia, na França. Além disso, estiveram presentes equipes das colônias francesas em Marrocos e Argélia; da Palestina, à época em mãos inglesas; e dos territórios espanhóis na África. Houve também a participação de representações de exilados políticos alemães, austríacos e italianos e uma equipe de judeus de diferentes nacionalidades.

Outra prioridade do evento foi buscar o incentivo à participação das mulheres nas competições. Nas primeiras décadas do século 20, as Olimpíadas contaram com escassa presença feminina, que enfrentava oposição inclusive do fundador dos jogos modernos, Pierre Coubertin. Nos jogos de Berlim, por exemplo, as atletas foram apenas 8% do total de inscritos. Ainda que os dados disponíveis não permitam conhecer o número de mulheres participantes do evento espanhol, entidades e federações esportivas femininas estiveram na organização e competiriam no evento.

Muitos dos atletas participantes foram enviados por clubes e associações esportivas vinculadas a sindicatos e partidos de esquerda, e não por comitês patrocinados pelos Estados, com algumas poucas exceções como a França, que inscreveu atletas para as duas Olimpíadas. Desde o início, o intuito dos organizadores era realizar um evento o mais amplo possível, atraindo instituições oficiais de diversos países. Ao final participariam dez federações internacionais, oito espanholas e seis catalãs. O objetivo não era realizar mais uma competição internacional de atletas amadores ou outra edição dos tradicionais jogos operários e, sim, organizar um grande evento esportivo capaz de se contrapor aos jogos oficiais.

Sonho interrompido

Milhares de atletas já estavam na capital da Catalunha no dia 18 de julho. Os últimos ensaios para a cerimônia de abertura eram realizados no Estádio de Montjuïc, quando começou a correr a notícia de que iniciara um golpe militar, a partir dos territórios espanhóis na África. O clima tenso que tomava o país era sentido entre os atletas às vésperas das competições, como relata o participante catalão Eduardo Vivancos: “o entusiasmo e a euforia flutuavam sobre o estádio, mas, desgraçadamente, eram mitigados por um sentimento de temor e tensão. Durante todo o dia corriam rumores muito alarmantes sobre uma iminente rebelião militar”.

No dia seguinte, antes de o sol raiar, as ruas de Barcelona vivenciariam uma insurreição militar que tentou controlar a cidade. “Em torno das cinco da manhã, os atletas foram despertados por tiros de fuzil, metralhadora e canhão: as forças fascistas tentavam derrubar a República”, recordaria em uma crônica da época Auguste Delaune, dirigente francês que participou da organização da Olimpíada. O que se seguiu então foram dois dias de combates até que as forças legalistas controlassem a capital catalã, com um saldo de centenas de mortos e cerca de mil feridos.

O desenrolar dos confrontos nas outras regiões espanholas nos dias seguintes deixou o país dividido em duas zonas, uma leal ao governo republicano democrático e outra que havia sido tomada pelos insurgentes, que tinham entre suas lideranças o futuro ditador Francisco Franco. A guerra civil que explodiu justo um dia antes do início da Olimpíada Popular tinha como pano de fundo a conjuntura internacional radicalizada da década de 1930 e, em especial, a extrema polarização da sociedade espanhola, então dividida entre grupos conservadores e os que defendiam – de distintas formas – profundas mudanças sociais.

Com o início do conflito, muitos dos atletas estrangeiros deixaram o país às pressas e, inclusive, dois barcos foram fretados para que pudessem partir rumo à França. Alguns atletas, entretanto, decidiram ficar e colaborar com a República, principalmente franceses e exilados alemães e italianos. Segundo o historiador Antony Beevor, em seu livro “A Batalha Pela Espanha”, “muitos dos atletas estrangeiros que esperavam em seus alojamentos e hotéis se uniram no dia seguinte aos operários para lutar contra o fascismo, e uns duzentos deles se incorporaram mais tarde às colunas das milícias populares”.

É difícil confirmar tal número, mas é certo que muitos esportistas colaboraram com a resistência ao golpe militar – há relatos de um austríaco morto já no dia 19 – e que alguns deles teriam participado de outras batalhas. O livro “L’Altra Olimpíada”, por exemplo, confirma que um grupo de alemães teria lutado na frente de Aragão. Outros episódios relatados pela obra mostram que italianos e franceses teriam participado dos combates em Barcelona. Além disto, esportistas espanhóis de Mallorca e Zaragoza decidiram permanecer na capital catalã, já que suas regiões haviam sido tomadas pelos insurgentes. Com o passar do tempo, ganhou força a tese – difícil de ser confirmada – de que aqueles atletas teriam sido uma espécie de embrião das Brigadas Populares, formadas por milhares de estrangeiros que deixaram seus países para lutar ao lado da República.

Os jogos de Hitler

Adolf HitlerEnquanto a Espanha mergulhava em sua violenta guerra civil, começava a Olimpíada de Berlim com uma estrutura nunca antes vista. O orçamento havia sido multiplicado por 20 e foi construído um moderníssimo complexo esportivo. A Olimpíada teve presença de jornais do mundo todo, foi a primeira transmitida ao vivo pelo rádio – e para mais de 40 países – e ainda contou com uma pioneira cobertura televisiva. Além disso, a destacada cineasta Leni Riefenstahl foi escalada para produzir o filme oficial dos jogos “Os deuses do Estádio”. Como se era de esperar, as competições foram transformadas em um espetáculo de apologia ao nazismo e de propaganda do poderio alemão.

Pela primeira vez se realizou o agora tradicional cortejo da tocha desde as ruínas de Olímpia. Mais de 3.000 atletas carregaram o fogo olímpico desde a Grécia até chegar em Berlim para a cerimônia de abertura, que foi acompanhada por 100 mil pessoas e não poupou na exibição de símbolos nazistas e no culto à personalidade do führer. Entre as delegações estrangeiras em desfile, muitas fizeram a saudação nazista ao passar por Hitler, que declarou os jogos abertos. Enquanto a euforia tomava conta de Berlim, 800 ciganos eram levados para o gueto de Marzahn e, perto da capital alemã, o enorme campo de concentração de Sachsenhausen era erguido. Em pouco tempo seria o destino de milhares de inimigos do regime.

Após as competições, mesmo com a consagração do atleta negro norte-americano Jesse Owens, era inegável a enorme vitória política da Alemanha. O país ficou em primeiro lugar, com 38 medalhas de ouro, e utilizou o evento para legitimar o regime nazista e propagandear seus ideais. O próprio Pierre de Coubertin afirmou, ao final das competições, que aquela tinha sido a melhor edição. Com a Segunda Guerra Mundial e derrota da Alemanha nazista, o tempo não perdoaria a Olimpíada de 1936, hoje considerada o episódio mais controvertido da história dos jogos modernos.

Esquecimento e memória

Quase 40 anos de ditadura franquista fez com que a empreitada da Olimpíada Popular praticamente caísse no esquecimento. Apenas com a abertura política, a partir de 1975, a memória desses acontecimentos ressurgiu. Até hoje o tema é relativamente desconhecido e diversas informações a seu respeito se perderam para sempre, como muitos dos arquivos dos jogos que desapareceram durante a guerra civil. O único livro sobre o assunto, “L’Altra Olimpíada”, foi publicado em 1990, e, apenas em 2006 o governo da Catalunha realizou uma exposição sobre os jogos. Atualmente, por conta do aniversário de 80 anos, outra mostra está em cartaz no Estádio do Montjuïc.

Foram necessários 56 anos para que Barcelona realizasse seus Jogos Olímpicos, contrariando os opositores da Olimpíada Popular que afirmavam que a capital catalã nunca mais teria tal oportunidade. O mesmo estádio de Montjuïc que sediaria a Olimpíada Popular foi reformado e adaptado para os jogos de 1992. Desde 2001, o lugar foi nomeado Estádio Olímpico Lluís Companys. Assim como a Olimpíada Popular, seu presidente de honra também teve um fim trágico. Após a tomada da Catalunha pelos franquistas em 1939, Companys foge para a França, onde foi preso pelos nazistas, que haviam invadido o país em 1940. Deportado para a Espanha, acabou fuzilado no castelo de Montjuïc, muito próximo ao estádio que hoje leva o seu nome. Muitos catalães gostam de lembrar, com orgulho, que o seu então presidente teria sido o único chefe de estado democraticamente eleito a ter sido executado no exercício do cargo.

O sentimento de frustração de muitos dos que se envolveram naquela aventura foi traduzido, ainda durante a guerra civil, em julho de 1937, em um texto do articulista Prats i Fonts, reproduzido no livro “L’Altra Olimpíada”: “não nos foi possível computar nossa força esportiva diante do mundo pelo fato de que tivemos que trocar os dardos pelo fuzil; o lançamento de disco pela bomba de mão; os saltos de obstáculos pelas barricadas e trincheiras; e as corridas pelas marchas militares; da mesma maneira nossa alegria se desmoronou ao sofrimento e a atração estrangeira foi trocada pelo horror, o turismo pela invasão, e a luz, o amor e a vida pelo tenebroso, o ódio e a morte. O CCEP não pôde levar a cabo aquele sonho que se havia forjado com tanto ânimo”.

Resgate histórico promovido por Juliana Sada e Rodrigo Valente para o portal do Opera Mundi.

TV Brasil exibe neste domingo, filme inédito para marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Aniversário da libertação do campo de Auschwitz-Birkenau

“A Trajetória do Genocídio Nazista”, uma produção do Museu Estadunidense Memória do Holocausto com imagens raras sobre o período, começa às 23h.

A ONU designou 27 de janeiro – aniversário da libertação do campo de Auschwitz-Birkenau – como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Nesse dia as Nações Unidas incentivam todos os Estados-membros a homenagear as vítimas do nazismo e a desenvolver programas educacionais para ajudar a prevenir futuros genocídios.

Como bem lembra o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em sua mensagem para a data, “as Nações Unidas foram fundadas para prevenir que horrores como esses voltassem a acontecer. No entanto tragédias em Camboja, Ruanda e Srebrenica demonstram que o veneno do genocídio ainda flui. Temos que permanecer vigilantes contra a intolerância, ideologias extremistas, e discriminação contra minoras”.

Como parte das atividades do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a TV Brasil exibirá, neste domingo, dia 26 de janeiro, às 23h, um documentário inédito, produzido pelo Museu Estadunidense Memória do Holocausto: “A Trajetória do Genocídio Nazista”.

O filme, com direção de Raye Farr, utiliza imagens raras para mostrar a ascensão e a consolidação dos nazistas na Alemanha que levaram a uma guerra mundial e ao assassinato de milhões de pessoas. Estas imagens são provenientes de diversos museus, coleções particulares e grande parte delas, exibidas pela primeira vez.

O documentário, que cobre o período de 1918 a 1945, discute o surgimento da ideologia e propaganda nazista e a subsequente perseguição dos judeus e outras vítimas com o objetivo de provocar a reflexão e o debate sobre este momento da história, que mudou a forma como vemos o mundo.

Sobre o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Rejeitando qualquer negação do Holocausto como um acontecimento histórico, na íntegra ou em parte, a Assembleia Geral da ONU adotou por consenso, em 2005, a resolução A/RES/60/7, na qual condena “sem reservas” todas as manifestações de intolerância religiosa, incitação, assédio ou violência contra pessoas e comunidades com base na origem étnica ou crença religiosa, onde quer que ocorram.

Este mesmo documento pede à ONU que designe o dia 27 de janeiro – aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau – como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, e solicita aos Estados-membros que desenvolvam programas educacionais para que a tragédia não seja esquecida pelas gerações futuras com o objetivo de evitar que atos de genocídios voltem a acontecer.

Serviço

Dia 27 de janeiro é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Rejeitando qualquer negação do Holocausto como um acontecimento histórico, na íntegra ou em parte, a Assembleia Geral adotou por consenso, em 2005, a resolução A/RES/60/7, na qual condena “sem reservas” todas as manifestações de intolerância religiosa, incitação, assédio ou violência contra pessoas e comunidades com base na origem étnica ou crença religiosa, onde quer que ocorram.

Este mesmo documento pede à ONU que designe o dia 27 de janeiro – aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau – como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, e solicita aos Estados-Membros que desenvolvam programas educacionais para que a tragédia não seja esquecida pelas gerações futuras com o objetivo de evitar que atos de genocídios voltem a acontecer.

O tema deste ano – Resgate durante o Holocausto: a coragem de se importar – presta homenagem àqueles que arriscaram suas vidas e de suas famílias para salvar judeus e outros da morte quase certa sob o regime nazista.

“Algumas dessas histórias alcançaram destaque icônico – como a história de Raoul Wallenberg, um diplomata sueco que ajudou a salvar dezenas de milhares de judeus em Budapeste. Mas as histórias de muitos dos salvadores são conhecidas apenas por aqueles que se beneficiaram de seus atos corajosos”, lembra o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, em sua mensagem para Dia Internacional.

Leia a mensagem do Secretário-Geral

“Durante a Segunda Guerra Mundial, milhões de pessoas que não estavam de acordo com a ideologia pervertida de Adolf Hitler de perfeição ariana – judeus, ciganos e sinti, homossexuais, comunistas, doentes mentais e outros – foram sistematicamente perseguidas, presas e transportadas para campos de extermínio. Algumas foram assassinadas imediatamente, outras cruelmente forçadas a trabalhar até a morte. Todos os anos, no aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau, lembramos o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, para que nunca esqueçamos esses crimes.

O tema deste ano – Resgate durante o Holocausto: a coragem de se importar – presta homenagem àqueles que arriscaram suas vidas e de suas famílias para salvar judeus e outros da morte quase certa sob o regime nazista. As histórias dos salvadores são diversas. Alguns abrigaram as possíveis vítimas em suas casas, outros levaram famílias para a segurança ou ajudaram a obter os documentos necessários para escapar. No entanto, entre todos existe uma linha comum: coragem, compaixão e liderança moral.

Algumas dessas histórias alcançaram destaque icônico – como a história de Raoul Wallenberg, um diplomata sueco que ajudou a salvar dezenas de milhares de judeus em Budapeste. Mas as histórias de muitos dos salvadores são conhecidas apenas por aqueles que se beneficiaram de seus atos corajosos. A comemoração deste ano destina-se a aumentar esse registro histórico, e dar a esses heróis desconhecidos o destaque que merecem.

O “Holocausto e o Programa de Divulgação das Nações Unidas” produziu um pacote educacional sobre estes salvadores. Embora os atos de genocídio ilustrem as profundezas do mal a que os indivíduos e sociedades inteiras podem descer, os exemplos desses bravos homens e mulheres também demonstram a capacidade da humanidade para o bem, mesmo durante o mais escuro dos dias.

Neste Dia Internacional, lembremo-nos de todas as pessoas inocentes que perderam suas vidas durante o Holocausto. E deixemo-nos inspirar por aqueles que tiveram a coragem de ajudar, pessoas comuns que tomaram medidas extraordinárias para defender a dignidade humana. O seu exemplo nos pode ajudar a construir um mundo melhor

Para acompanhar o calendário de eventos em memória das vítimas do Holocausto, clique aqui.

Filosofia contemporânea versus realidade anacrônica

Marx e Nietzsch

Aquele que desiste de criar o mundo com suas próprias mãos cai na interdição, mas numa interdição específica que é a de estar fadado a sonhar e se enredar nos seus sonhos sem nunca nada realizar

Não é exata esta citação, mas o sentido é preciso e acredito que duas posições diametralmente opostas se explicitam filosoficamente aí. Me refiro a Marx e a Nietzsche. O primeiro se entregou à criação do mundo não só por suas próprias mãos mas também com a daqueles que no mundo só produzem com suas próprias mãos. O segundo se entregou a seus sonhos e neles se enredou de tal modo que foi ao encontro daqueles que só estão entregues a seus sonhos e neles enredados a tal ponto que ficam fora da realização, fora da realidade e são conhecidos como loucos.

Mas, na Alemanha, dizia o jovem Marx, a única realidade contemporânea à realidade inglesa e francesa, isto é, contemporânea à realidade contemporânea era a filosofia ou o mundo dos sonhos, o mundo do idealismo alemão. O jovem Marx fugiu da Alemanha e foi viver na Inglaterra, o país europeu mais avançado no sentido de realizador da realidade contemporânea ou capitalista. Nietzsche, jovem e velho, permaneceu na Alemanha e, quando muito, viajou para Itália, então, permaneceu no país cuja realidade era a mais não contemporânea (me falta a palavra para aquilo que está no passado e fora da contemporaneidade, a qual, se não me engano, começa com a letra a) e, cuja contemporaneidade era exclusivamente a filosofia ou o mundo do pensamento, dos sonhos, logo, é possível compreender Nietzsche como ele mesmo se compreendeu, como um póstumo, tanto no sentido de sua realidade cotidiana não ser contemporânea, quanto no sentido de sua realidade contemporânea ser só um mundo onírico. Além disso, é possível ver a sociedade alemã oscilando entre a realização da contemporaneidade do mundo onírico por meio da filosofia social-democrata e a permanência no anacronismo (a palavra que faltava: anacrônica) da realidade alemã por meio da mitologia nacional socialista ou nazista.

Se consideramos verdadeira a observação de Marx sobre a Alemanha, então fica claro que a contemporaneidade e atualidade da Alemanha estão na filosofia e racionalidade de seu mundo de sonhos e pensamentos que são realidades em outros países europeus, ou seja, a realização da filosofia alemã só é possível como realização do internacionalismo, logo, sempre que a Alemanha impede a realização da filosofia alemã ela se prende firmemente no nacionalismo ou se afunda no isolamento de sua realidade anacrônica.

A social-democracia alemã viabilizou a Grande Guerra ou a Primeira Guerra Mundial renunciando ao internacionalismo e realização da filosofia social-democrata em prol do nacionalismo e isolamento profundo na sua realidade anacrônica. E o nazismo viabilizou a Segunda Guerra Mundial porque, herdando a renúncia internacionalista da social-democracia ou a queda e entrega desta ao nacionalismo, passou a absorver na sua realidade anacrônica a filosofia ou sonho do socialismo como mito e/ou exacerbação do nacional-socialismo.

Ao que parece a realização da filosofia social-democrata na Alemanha atual passa pela continuidade do euro e efetivação duma muito forte e irreversível União Européia, já o afundamento da Alemanha no anacronismo de sua realidade nacionalista (ou o nacionalismo de sua realidade anacrônica), ao que parece, passa pela descontinuidade do euro, hegemonia do marco, dissolução da União Européia e muito forte constituição do Império Alemão e da Vassalagem Européia. Os movimentos direitistas na Europa atual se mostram marcados com o selo do nacional-socialismo ou nazismo.

Em 1936, August Landmesser recusou-se a fazer a saudação a Hitler em pleno auge do nazismo

August Landmesser recusou-se a fazer a saudação nazi

O homem que recusou a saudação nazi

Chama-se August Landmesser e em 1936, em pleno auge do nazismo, recusou-se a fazer a saudação a Hitler. Por detrás de uma fotografia, uma história de amor divulgada 76 anos depois.

Em 1936 uma multidão juntava-se em Hamburgo para assistir ao lançamento de um navio de treino nazi. Enquanto centenas de pessoas levantavam o braço direito para aclamar Hitler, um homem destacou-se por manter os braços cruzados, franzir os olhos, e se recusar a fazer a saudação.

Mas só em 1991 este homem foi identificado por uma das suas filhas como sendo August Landmesser, um trabalhador do estaleiro de Hamburgo, revela o Washington Post. A foto publicada num jornal alemão, foi posteriormente divulgada num blog criado para facilitar as operações de socorro no Japão, depois do terramoto e tsunami de março de 2011. A imagem, recuperada também numa página do Facebook, rapidamente deu a volta ao mundo e já conta com quase 30 mil partilhas.

Ao que parece, Landmesser tinha uma razão muito pessoal para não fazer a saudação. De acordo com um site sobre o campo de Auschwitz, pensa-se que o homem terá feito parte do partido nazi entre 1931 e 1935, no entanto foi expulso por ter casado com uma judia, Irma Eckler. Depois de ter duas filhas com Irma, foi preso por “desonrar a raça”. Acredita-se que Irma terá sido detida pela Gestapo e levada para uma prisão em Hamburgo. As filhas, Ingrid e Irene, foram separadas: uma ficou a viver com a avó materna e a outra foi levada para um orfanato até ser adotada por uma família.

Landmesser foi libertado em 1941 mas rapidamente foi chamado a servir na guerra. Pouco tempo depois foi dado como desaparecido e todos julgaram que tinha morrido em combate. Em 1996, uma das filhas, Irene, resolveu escrever uma história com o objetivo de contar ao mundo como o regime destruiu a sua família. 16 anos mais tarde, a narração espalhou-se pela Internet e foi revelado mais um tesouro histórico.

Nazistas são condenados no Tribunal de Nuremberg

Vista do banco dos réus no Tribunal de Nuremberg

O Tribunal Militar Internacional de Nuremberg declara em 30 de setembro de 1946 que 18 líderes nazistas são culpados de crimes de guerra e dos quais 11 condenados à pena capital por ”crime contra a humanidade”.

Ao se aproximar a data do início dos julgamentos – 20 de novembro de 1945 – a cidade começou a se encher de visitantes. Equipes de cerca de mil procuradores, advogados e juristas passaram a ouvir testemunhas e organizar dezenas de milhares de documentos. Advogados alemães, alguns dos quais nazistas, chegam para entrevistar seus clientes.

No dia da abertura, os 22 acusados tomam assento no banco dos réus. Às 10h00, o presidente do tribunal, o britânico Geoffrey Lawrence, proclama: “Atenção. Todos de pé!” Juízes dos 4 países – União Soviética, Estados Unidos, Grã Bretanha e França – tomam seus lugares.

O julgamento começa com a extensa leitura das acusações: Primeira Acusação: “conspiração para desencadear guerra agressiva”, anexação da Áustria e invasão de diversos países europeus; Segunda Acusação: “desencadeando uma guerra agressiva; Terceira Acusação:”crimes de guerra” como extermínio ou maus tratos de prisioneiros e utilização de armas proibidas; Quarta Acusação: “crimes contra a humanidade” crimes cometidos contra os judeus, minorias étnicas, contra os deficientes físicos e mentais, contra os civis em países ocupados.

O processo foi dividido em duas fases principais. A primeira centrou-se em estabelecer a criminalidade dos vários componentes do regime nazista, enquanto a segunda buscou estabelecer a culpabilidade individual dos acusados. Examinou-se na primeira fase a utilização pelos nazistas do trabalho escravo e os campos de concentração. Foram trazidas provas do verdadeiro horror do regime nazista. Por exemplo, em 13 de dezembro de 1945, o promotor Thomas Todd mostrou imagens de pele humana tatuada curtida de vítima de campo de concentração, preservada para Isle Koch, a mulher do comandante de Buchenwald, que gostava de usá-la em seus abajures.

Em 18 de dezembro, começou-se a exibir provas da culpabilidade de cada um dos membros da liderança do Partido Nazista, do Gabinete governamental, da SS, da Gestapo, do alto comando militar.

Em janeiro de 1946, vítimas dos campos de concentração contaram suas experiências. Marie Vaillant-Couturier, francesa de 33 anos, deu um pavoroso depoimento do que vira em Auschwitz em 1942.  Relatou que certa noite foi acordada por horríveis gritos. No dia seguinte soube que, como tinha se esgotado o gás Zyklon B, os nazistas começaram a lançar as crianças dentro do forno crematório vivas.

Num outro momento, o advogado de Goering perguntou se o Partido Nazista chegara ao poder por meios legais. Numa longa resposta, contou a ascensão dos nazistas. “Uma vez lá instalados, estávamos determinados a mantê-lo sob quaisquer circunstâncias.” Adiante o procurador Robert Jackson, após descrever a terrível Kristallnacht, Noite dos Cristais Partidos, em que foram destruídas centenas de lojas e sinagogas, perguntou se confirmava suas palavras ditas na ocasião a um destacamento de segurança –” Exijo que a judiaria alemã contribua com um bilhão de marcos por seus crimes abomináveis”. Goering consentiu e acrescentou: “Eu não gostaria de ser judeu na Alemanha”.

Muitos dos acusados alegaram obedecer ordens ou desconhecer os fatos. Alguns confessaram seus crimes, oferecendo desculpas pelas ações. O marechal  Wilhelm Keitel confessou-se “arrependido por não ter rejeitado ordens dadas na execução da Guerra no Leste contrárias à moral bélica.” Hans Frank, governador nazista da Polônia, respondeu “sim” se havia participado na aniquilação dos judeus e acrescentou. “Mil anos se passarão e a culpa da Alemanha não terá sido apagada”.

Conclusão

Em 30 de setembro, os 21 acusados são reunidos pela última vez para ouvir os veredictos. O presidente Sir Geoffrey Lawrence diz que devem permanecer sentados enquanto a sentença é anunciada. “O acusado, Hermann Goering, foi a força motriz das guerras agressivas, o segundo só atrás de Adolf Hitler…. Determinou que Himmler e Heydrich encontrassem uma solução final para a questão judaica. Culpado das 4 acusações.” Prosseguiu com os veredictos. Ao todo, 18 réus foram condenados por uma ou mais acusações e 3 – Schacht, Von Papen e Fritzsche – considerados não culpados.

O Tribunal Militar Internacional condenou Goering, Ribbentrop, Keitel, Rosenberg, Frank, Frick, Kaltenbrunner, Streicher, Sauckel, Jodl e Seyss-Inquart à morte na forca. Prisão perpétua para Hess, Funk e Raeder. Von Schirach e Speer receberam pena de 20 anos, Von Neurath, 15 anos e Doenitz, 10 anos.

Em 15 de outubro, véspera da data marcada para a execução, Goering deixa um bilhete dizendo que admitia ser fuzilado, mas como marechal do Reich não se permitiria ser enforcado e que preferia morrer como Aníbal. Ato contínuo, põe uma cápsula de ácido cianídrico entre os dentes e aperta as mandíbulas.

Outros fatos marcantes da data

Partigiani avisam que seguirão lutando contra o nazifascismo

Partigiani celebram na Praça de São Marcos, em Veneza, em abril de 1945

Em 6 de setembro de 1944, o serviço de inteligência britânico recebe a informação que, a despeito dos contratempos, a Resistência Italiana – Resistenza partigiana – continuaria a combater os ocupantes e a ampliar suas atividades.

A Resistência Italiana era um movimento armado de oposição ao fascismo e à ocupação da Itália pela Alemanha nazista, bem como à República Social Italiana – fundada por Benito Mussolini, em território controlado pelas tropas alemãs – durante a Segunda Guerra Mundial. A Resistência Italiana enquadrava-se historicamente no fenômeno europeu mais amplo de resistência à ocupação nazista.

O movimento armado, baseado numa estratégia de guerrilhas, surge quando a Itália é invadida pela Alemanha, após o estabelecimento do Armistício de Cassabile de 8 de setembro de 1943, entre a Itália, com Mussolini já deposto, e os Aliados. Muitos, entretanto, consideram que a Resistência Italiana já existia desde 1922, quando tem início a ascensão do fascismo. Seus membros eram conhecidos como “partigiani”.

Após a rendição das tropas alemãs, o movimento se dissolveu, em abril de 1945. Calcula-se que tenham participado da luta armada da Resistência mais de 300 mil pessoas, das quais cerca de 35 mil eram mulheres, de tendências políticas diversas e até antagônicas: comunistas, socialistas, católicos, monarquistas, anarquistas. Os partidos que participavam da Resistência, reunidos no Comitê de Libertação Nacional,  constituiriam mais tarde os primeiros governos do pós guerra.

Início da Resistência

Desde a rendição da Itália no verão de 1943, as tropas alemãs ocuparam amplas franjas da peninsula a fim de evitar que os Aliados usassem a Itália como base de operações contra os baluartes germânicos, como os Bálcãs. A ocupação aliada da Itália poderia pôr em suas mãos as bases aéreas italianas, ameaçando o poder aéreo alemão.

Bandeira do Arditi del Popolo, organização antifascista de Civitavecchia

À medida que os Aliados combatiam os alemães, empurrando-os mais e mais ao norte, tinham eficaz ajuda dos partigiani. A Resistência Italiana lutava agora contra o fascismo nazista e contra a monarquia italiana. A libertação da Itália para os partigiani significava uma república democrática e não o retorno a um país governado, o mais das vezes ineptamente, por um rei.

Os partigiani mostraram-se extremamente eficientes na ajuda aos Aliados. No verão de 1944, os lutadores da resistência já haviam imobilizado 8 das 26 divisões alemãs no norte da Itália. A reaçao da Wehrmacht as atividades da resistência foi brutal. Num único episódio, os soldados alemães mataram 382 homens, mulheres e crianças como vingança a um ataque dos partisans que matou 35 soldados germânicos.

A varredura alemã da atividade guerrilheira provocou muito dano, mas foi incapaz de interrompê-la. Em 6 de setembro o embaixador japonês na Itália relatou a Tóquio que a atividade partigiana, especialmente em torno de Turim e na fronteira franco-italiana, havia crescido a despeito das baixas infligidas. A informação foi interceptada pela inteligência britânica e decodificada, assegurando que os britânicos não estavam sozinhos no combate ao exercito alemão.

No fim da guerra, os partigiani controlavam Veneza, Milão e Genova, porém, a um custo considerável. No final, a resistência havia perdido 50 mil homens, porém ganhou a sua república.

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